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Sérgio Augusto
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Meio século de Rubem Fonseca

Do alto da obra de Rubem Fonseca, meio século nos contempla. Está fazendo 50 anos que seus primeiros contos, reunidos na coletânea Os Prisioneiros, chegaram às livrarias. Foi um acontecimento - sem dúvida o mais surpreendente fenômeno literário daquele ano. Apesar do prestígio do conto e da crônica entre nós, Rubem Fonseca era um nome desconhecido no mercado editorial, e a editora GRD fazia da modéstia seu principal atributo. Mas a força singular das 12 narrativas de Os Prisioneiros - prestes a ser reeditado pela Nova Fronteira, junto com sua obra mais recente, Amálgama -, conquistou de roldão a crítica especializada e uma massa considerável de leitores.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2013 | 02h12

O exigente crítico Fausto Cunha consagrou Zé Rubem, de cara, "a grande revelação do ano". Nas páginas da Tribuna da Imprensa, o romancista José Edson Gomes proclamou: "É a melhor estreia no conto nos últimos tempos". E todos disseram amém. Nascia ali o mais instantâneo mito da narrativa curta brasileira.

O ano de 1963 não fora sem relevantes novidades editoriais. Manuel Bandeira lançara Estrela da Tarde, duas coletâneas de crônicas (A Casa Demolida, de Sérgio Porto, e Da Arte de Falar Mal, de Carlos Heitor Cony) haviam consolidado o gênero como uma arte ficcional de primeira linha, Jorge Mautner conquistara o Jabuti com o romance Kaos, quatro mulheres (Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Maria Alice Barroso e Astrid Cabral) haviam ampliado o espaço para a prosa feminina. Até mesmo o conto já contabilizara um lançamento de alto nível: Malagueta, Perus e Bacanaços, de João Antônio. Quando, a dois meses do fim do ano, surgiu Os Prisioneiros, não sobrou para mais ninguém.

Coube a Assis Brasil, o faulkneriano crítico do Jornal do Brasil, descerrar a cortina, com um artigo publicado no Caderno B em 18 de outubro, que era só elogios à fartura de recursos estilísticos do debutante e à mestria dos seus diálogos. Comparou sua morbidez à de Kafka, seu lado satírico a James Thurber e seu penchant fantástico a Edgar Allan Poe. Os Prisioneiros foi um dos primeiros em sua lista de "melhores do ano". E também nas de Fausto Cunha, Octavio de Faria e outros tantos.

A impressão geral era de que nenhum outro ficcionista da terra escrevia daquele jeito - e aqui arrolo os adjetivos que pincei dos comentários da época: ardente, vibrante, criativo, inquieto, desconcertante, incômodo, realista, suprarrealista, cético, cruel. Em 1.º de fevereiro de 1964, a unção definitiva: em sua coluna no Suplemento Literário do Estado, Wilson Martins sagrou Rubem Fonseca como "um escritor que traz a literatura no sangue", um renovador do conto brasileiro, "no momento mesmo em que estaríamos inclinados a considerá-lo esgotado". Além da técnica esmerada do autor, impressionou-se com "a estranha atmosfera de morbidez e mistério" e o surrealismo dos contos - o "verdadeiro surrealismo", enfatizou, "que tantos grandes e pequenos mestres perseguiram em vão".

Distante daqui, na ocasião, perdi todo esse auê. Só fui ler Os Prisioneiros já amigo do escritor, depois de ter me extasiado com sua segunda coleção de contos, A Coleira do Cão, também editada pela GRD. Na dedicatória que me fez, Zé Rubem (é assim que os amigos o tratam) pedia desculpas pela qualidade do exemplar presenteado e salientava: "Este livro é diferente da Coleira. Conversaremos depois". Conversamos à beça. Não só tínhamos amigos comuns, como éramos então vizinhos, nas Laranjeiras, e habitués dos restaurantes portugueses do centro do Rio, cenários de inúmeras de suas histórias.

A primeira frase de Zé Rubem que eu li, portanto, não foi "A condessa Bernstroff usava uma boina onde dependurava uma medalha do kaiser", que abre Fevereiro ou Março, o primeiro conto de Os Prisioneiros, mas "Eu queria seguir em frente mas não podia", que abre A Força Humana, o cartão de visitas de A Coleira do Cão, que reputo uma das três melhores narrativas curtas da língua portuguesa.

Por ter chegado atrasado ao lance, também perdi o torneio de predileções disputado ao vivo, entre leitores conhecidos e desconhecidos, e na imprensa, por críticos e colunistas. Estes se dividiram entre Duzentos e Vinte e Cinco Gramas, O Agente, O Inimigo, Os Prisioneiros e Teoria do Consumo Conspícuo (ou a futilidade das cirurgias plásticas desnecessárias a partir da célebre reflexão sobre o consumismo exacerbado da burguesia, desenvolvida por Thornton Veblen, no final do século 19).

Wilson Martins foi um dos que optaram por O Inimigo, a seu ver, o conto que melhor "serviria para caracterizar a maneira do autor e o seu mundo particular". Nele detectou o personagem típico de Rubem Fonseca, "situado numa fronteira indecisa entre a normalidade e a loucura", buscando "recuperar o tempo perdido, não pela literatura ou pela arte, mas na vida".

Para agradar o editor Gumercindo Rocha Dória, Zé Rubem aceitou algo impensável dali em diante: conceder uma entrevista. A dublê de jornalista e radialista Edna Savaget passaria o resto da vida vangloriando-se da façanha, publicada no Suplemento Literário do Diário de Notícias em 8 de dezembro de 1963.

Zé Rubem ainda não se sentia à vontade para alegar que tudo o que tinha a dizer sobre sua obra estava na própria obra, pois em seu currículo, afinal, só havia um livro de 11 contos. De todo modo, não tocou em nenhum deles na entrevista. Falou de generalidades ("o conto está mais próximo da concisão dramática do teatro que da fluência narrativa do romance"), tangenciou seu modus operandi ("ao escrever um conto, não tenho a preocupação de situá-lo dentro de um determinado catálogo, mas sim de condicioná-lo formalmente ao tema e ao efeito que quero obter") e listou suas admirações na época: Kafka, Pound, Faulkner, Hemingway, Fitzgerald, Dos Passos, Guimarães Rosa ("sua obra é definitiva, ele pode morrer amanhã sem susto"), Campos de Carvalho, Cony, Autran Dourado, Clarice Lispector, Drummond ("um dos três maiores poetas da língua em todos os tempos", ao lado de Camões e Pessoa).

Sobre algumas dessas escolhas discorreria mais tarde, por escrito, na internet e na coletânea de crônicas literárias O Romance Morreu, que também está para sair pela Nova Fronteira.

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