Meio século de distância

Autor de A Invenção de Hugo Cabret evolui na forma com o novo Sem Fôlego

BIA REIS, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h12

Na primeira cena, dois lobos correm em uma área descampada em meio ao que parece ser uma floresta. Quando a página é virada, os animais se aproximam e um deles olha para o expectador. Mais uma página e o foco vai para os olhos brilhantes do lobo; mais adiante, se fixa em apenas um. Uma única pupila, então, preenche todo o espaço.

Os lobos que abrem o livro Sem Fôlego, do escritor norte-americano Brian Selznick, autor do premiado A Invenção de Hugo Cabret, percorrem toda a história. Apesar de também mesclar texto e desenhos ao longo de toda obra, a narrativa de Sem Fôlego é uma evolução da anterior. Se no primeiro livro Selznick usou as imagens para complementar a história contada com palavras, em Sem Fôlego o norte-americano criou duas histórias que correm de forma paralela e, ao fim, se encontram.

A primeira, narrada por meio de palavras, se passa no Lago Gunflint, em Minnesota, nos Estados Unidos. É junho de 1977, e Ben Wilson está na casa dos tios, onde mora desde que ficou órfão, com a morte da mãe em um acidente. Apesar do carinho dos familiares, ele se sente deslocado e lembra com frequência das músicas que a mãe cantava, das brincadeiras que faziam, do tempo que passam juntos. Frases que ela dizia ecoam constantemente em sua memória.

A segunda história é contada por meio de desenhos e se passa meio século antes, em Hoboken, Nova Jersey. É outubro de 1927. Em um grande quarto forrado de pequenos prédios, uma menina recorta fotografias de uma famosa atriz. Ela para e escreve em uma folha de papel: socorro. Depois, sai pela janela e usa o galho de uma grande árvore para chegar ao chão. Rasteja para passar por uma cerca, faz um barquinho com seu pedido de ajuda e o põe para navegar em um rio.

Semelhanças. Os dois personagens têm muito em comum, a começar pela surdez. Ben nasceu com audição em apenas um ouvido e perdeu completamente a capacidade de escutar depois que ficou órfão. Um raio atinge o garoto e faz com que ele seja hospitalizado. Internado, ele decide procurar o pai, que não conheceu e de quem a mãe sempre evitou falar. As dificuldades de comunicação que Ben passa a ter com a surdez completa não o desanimam. Com as poucas pistas em mãos - um medalhão com uma fotografia antiga e um livro com dedicatória -, Ben foge para Nova York na tentativa de descobrir sua própria história.

Já a menina cuja vida é narrada com desenhos, diferentemente de Ben, é surda desde o nascimento. Ela estuda em uma escola especial, onde convive com crianças iguais a ela, aprende a linguagem de sinais e se comunica com bastante desenvoltura.

Foi o documentário Through Deaf Eyes (Pelos Olhos dos Surdos) que inspirou Selznick a tratar do assunto. Ele viu o material no período em que escrevia A Invenção de Hugo Cabret e ficou maravilhado com a parte relativa ao cinema e à tecnologia sonora introduzida nos filmes mudos nos anos 20. Até essa inovação, ouvintes e surdos se divertiam juntos nas salas de cinema. Sem Fôlego, assim como A Invenção de Hugo Cabret, também reverencia o cinema com sua linguagem quase cinematográfica.

Mas a semente de Sem Fôlego é anterior e está no Museu Americano de História Natural, em Nova York. No início da década de 90, Selznick foi convidado por um amigo para um passeio nos bastidores da instituição; ficou, literalmente, sem fôlego. E pensou que um dia escreveria uma história que se passaria lá.

Cenário da segunda parte do livro, o museu é parte central da narrativa do norte-americano e crucial para o desfecho da história. Faz, em Sem Fôlego, o papel da estação de trem de Paris em A Invenção de Hugo Cabret. Como no livro anterior, este também trata de outro valor caro para o escritor: a amizade.

Selznick entrou para o mundo da literatura infantil quando começou a trabalhar na livraria Eeyore's Books for Children, em Manhattan. O rapaz, então com 20 e poucos anos, havia se graduado pela Rhode Island School of Design e logo lançou seu primeiro livro, The Houdini Box, em 1991. A guinada em sua carreira ocorreu 20 anos depois, com A Invenção de Hugo Cabret.

A obra, que ganhou vida nas mãos do diretor Martin Scorsese, figura na prestigiosa Lista de Honra da Biblioteca Internacional de Munique e recebeu a Medalha Caldecott, um dos mais importantes prêmios norte-americanos de literatura infantil.

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