Meia-volta

Se São Paulo tem 70 mil bares e restaurantes cadastrados, por onde andam os cozinheiros, chefes, garçons, maîtres, sommeliers?

Marcelo Rubens Paica, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2020 | 03h00

Sempre invejei o porteiro pernambucano, filho de pescador. Perguntava por que ele preferia morar aqui, no Jardim Ângela, e não na praia com a família. Mais opções, dizia. Um barbeiro do bairro voltou com a mulher pra João Pessoa. Montaram um salão por lá. 

Um amigo cientista político foi com a filha pequena para a casa da mulher numa praia de Floripa. Dá aulas e escreve colunas de lá. Eu aqui, onde um elevador é considerado lugar de risco.

Se São Paulo tem 70 mil bares e restaurantes cadastrados, por onde andam os cozinheiros, chefes, garçons, maîtres, sommeliers? E migrantes do interior do Estado, cearenses, pernambucanos, baianos, mineiros?

Uma amiga separada enfurnada na quarentena em São Paulo, num bairro em que os prédios não têm vista, estava sem trabalhar. Deprimiu, definhou, afundou num colchão sob o manto da tristeza. A filha de seis anos entrava e tirava sua temperatura, achando que mamãe estava dodói. Mamãe virara cobaia da indústria farmacêutica; não acertava a dose certa do antidepressivo perfeito.

Claro que as aulas online do Fundamental 1 não rolavam. Crianças não conseguem entender a educação via aquela tela sem contato físico. De que são proibidas e estão encharcadas de fake news, ódio, youtubers tagarelas e desbocados, games sanguinários, com tiros e zumbis.

Ela teve forças para pegar a filha e ir à fazendinha da família, a cinco horas de carro, onde chegou com incertezas, especialmente depois de rever alguns fantasmas da adolescência que acreditava estarem enterrados. 

Aqui na cidade grande, era a farrista doidinha que não parava quieta, estava em todas, a da balada forte, excessos. Ficou sem rumo antes da pandemia, piorou com ela, chorou sem sair da cama, numa culpa sem tamanho por não poder confortar quem precisava, a filha. O poço parecia sem fim. Fizeram as malas e se mandaram. Mandaram muito bem.

No campo, anda a cavalo com a menina, passeia pelas montanhas, vê céus estrelados, revê primos, acaricia cachorros, lê bastante e se dá ao luxo de fazer cursos via Zoom ao vivo e on demand de literatura, história. Descobre filmes de arte em streamings independentes. 

Postou no Insta as vaquinhas não confinadas da família, deitadas felizes nos pastos. Mostrou o leite sendo tirado sem ordenha mecânica. Contou que atendem pelo nome, e vêm quando convocadas. A filha aprendeu a tirar leite. Decidiu comprar mais vaquinhas. A novidade: parou de tomar antidepressivos e se tornou vegana. Eventualmente, ela me manda fotos que mexem comigo. Queria estar lá. Como a invejo... 

Eu aqui nesse estresse, rodeado de estressados, temendo a rua, amigos, a família, com dois filhos pequenos, sem bares, opções culturais, restaurantes, sem poder viajar. Se marco bobeira, lá estão bagunçando a cozinha, atacando a geladeira, no tablet, no YouTube. Se desço, lambem o elevador.

Nos anos 1970 houve a virada, Brasil rural se tornou urbano: mais de 50% da população passou a morar em cidades, gente expulsa pela concentração de terra, latifúndio, grilagem, agronegócio, mecanização, ou atraída pela vida da sociedade, vida consumista de rolê agitado, opções. 

O pequeno sitiante, o que vivia da roça, o que tinha uma chácara com galinhas, o trabalhador do campo, pulou de plantação em plantação, como numa cena de John Steinbeck ou Graciliano Ramos, e caiçara trocou o bucólico pela periferia de uma cidade industrial.

Lembrei-me da fazenda da minha família no Vale do Ribeira, em que na infância me deixavam por meses com 30 primos, entre cavalos pangarés e cachorros, com a opção de nadarmos no lago barrento ou no rio cristalino, ainda não poluído, com praias de areia, cercados pela Mata Atlântica. 

Programas: caminhadas, jogos de futebol com colonos, leite da vaca às manhãs, e uma quantidade enorme de opções noturnas, jogos de salão como pingue-pongue, sinuca, teatrinho, violão, fogueira, festinhas à fantasia, carteado, xadrez, livros, histórias contadas pelos mais velhos, e um piano de cauda em que tios insistiam em tocar Chopin, sempre Chopin.

A fazenda não era lucrativa. Dizia-se: fazendeiro vive pobre e morre rico. Era uma forma de meu avô agregar a família em férias de verão, inverno, feriadões. Ao morrer, os herdeiros se desfizeram dela, torraram os cobres, e a diáspora familiar começou. Cada um está num canto do mundo seguindo a sua vida. Rachas políticos e éticos rolaram. Poucos se falam.

Outro dia, me ligaram. A sede da fazenda estava à venda. Por um valor que eu não podia pagar. O valor sentimental que não tem volta. O rio ficou poluído. Roubaram a areia da praia. Não tem mais vacas nem cavalos, apenas bananeiras. A casa pegou fogo. 

Mas, com tanto tempo vago, me lembrei de cada canto: naquele galpão, faria uma horta hidropônica; plantaria produtos orgânicos baseado na agricultura sintrópica ao redor do lago; quem chegasse, ficaria de quarentena na casa de hóspedes; uma vaca pode dar, dependendo da raça, de 25 a 70 litros/dia; deixo-as pastando pelo gramado, com cabras, para queijos; cerco tudo de, árvores frutíferas; meto umas galinhas. Vendo tudo na cidade grande.

O futuro será uma volta ao campo. Temos as redes, internet, cinema, museus, teatro e escolas online. Teremos comida de primeira e vida ao ar livre de volta. A pandemia acendeu a luz: o conglomerado urbano faliu.

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