Henry Meray/Divulgação
Henry Meray/Divulgação

Mehta em dois tempos

Maestro regeu grupos jovens de Heliópolis e Israel em mesma apresentação

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

Assistir no Brasil a dois grandes maestros em ação em menos de uma semana é fato raro. O público compartilhou duas aulas magnas de regência. Domingo passado, Lorin Maazel deu um show de elegância e precisão na Sala São Paulo com a OSB. E a mágica repetiu-se anteontem à noite, no Teatro Municipal de Paulínia, com uma exibição de gala do maestro indiano Zubin Mehta, de 75 anos.

Ele é mais expansivo que Maazel; a notável musicalidade está no mesmo nível e é até curioso que ambos tenham sido titulares da mesma Filarmônica de Nova York. Além disso, Mehta exibe gestos mais enérgicos ao dar as entradas, é mais vibrante na condução do fraseado: chama a si a atenção dos músicos, não lhes dá trégua, numa atitude compreensível porque conduzia músicos jovens.

A diferença não é desprezível. Ao reger na mesma noite duas orquestras jovens, Mehta ganhou de presente de seus comandados muito ímpeto, entusiasmo e comprometimento, mas perdeu em filigrana e sutileza. Por isso, o balanço de um concerto desta natureza, que também se confunde com uma festa ou confraternização, é necessariamente cheio de altos e baixos. A Orquestra Jovem da Filarmônica de Israel é formada por uma invejável seção de cordas: precisas na articulação, afinação excepcional. Falta, é claro, o refinamento, que emanava da batuta de Mehta mas não alcançava as estantes. Mas isso não quer dizer que a execução de Les Préludes, de Liszt, foi ruim. Longe disso. Foi muito boa. Mas sem grandes meias-tintas.

Houve, porém, um enorme equívoco na ordem do concerto. Abrir com a Filarmônica de Israel e depois colocar nossos meninos de Heliópolis fazendo Romeu e Julieta de Tchaikovsky provocou a inevitável comparação entre as cordas. O mesmo aconteceu no comparativo com as madeiras. Heliópolis até que reagiu bem à regência de Mehta, mas poderia ter ido melhor; quem sabe o nervosismo a tenha feito ficar alguns furos abaixo do que já exibiu com seu titular Isaac Karabtchevsky.

A festa tomou conta da segunda parte, quando as orquestras se fundiram numa gigantesca massa sonora de 150 músicos no palco. No pódio, Mehta comandou uma execução desigual da Sinfonia Fantástica de Hector Berlioz. Nem poderia ser diferente. A imensa barragem de quase uma centena de cordas cobria as pobres madeiras, que mesmo duplicadas não conseguiram fazer frente à tsunami encordoada. Quantidade nem sempre quer dizer qualidade. Perdeu-se, por exemplo, a exatidão de ataque e afinação das cordas nos inúmeros vertiginosos uníssonos; houve desafinações aqui e ali; perdeu-se, claro, a integridade de cada orquestra - e só se ganhou volume e linearidade dinâmica, do mezzoforte para o forte e fortíssimo.

Nada disso tira o brilho de uma noite memorável - e, fato inédito, tirou Mehta de suas férias em Los Angeles para este concerto isolado no Brasil. Esta sua atitude não é isolada. Ele revelou querer colocar lado a lado músicos palestinos e israelenses em Ramallah - como Daniel Barenboim faz desde 1999 na Orquestra West-Eastern Divan. Por este notável trabalho, aliás, Barenboim está sendo indicado ao Prêmio Nobel da Paz deste ano. Como maestro titular vitalício da Filarmônica de Israel, a adesão de Mehta aos ideais de Barenboim tem que ser aplaudida, pois é um reforço expressivo na luta pela paz na região.

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