Megera de Fernanda Montenegro morre em "Belíssima"

Apesar dos protestos de parte da audiência, Bia Falcão ?morre? hoje em Belíssima. Morre entre aspas, porque pode reaparecer a qualquer momento, quem sabe no fim da novela, para apontar ela mesma quem tentou matá-la. A megera sofrerá um acidente de carro e, com o corpo teoricamente carbonizado, será reconhecida apenas pelas jóias -um anelzão de ouro com uma pedra de citrino. ?Tudo acontece em novela, é uma obra aberta, como dizem?, observa Fernanda Montenegro, que interpreta a vilã na trama de Silvio de Abreu. Há dois meses no ar com um elenco de primeiro time, entre jovens e veteranos atores, Belíssima é um grande sucesso. E se mantém com 45 pontos no Ibope, faça chuva ou faça sol, muito graças às frases cortantes ditas à queima-roupa por Bia - numa reedição da parceria notável Montenegro-Abreu. Tão elegante e sagaz quanto a megera da tela, e infinitamente mais amável do que ela, Fernanda recebeu o Estado entre as gravações de sua última cena, na garagem de um shopping na Barra da Tijuca, na sexta-feira passada. A cena do enterro, gravada na Vila MadalenaUm bando de curiosos aglomerados na porta do cemitério denunciava que alguém muito importante havia morrido na capital. Ou não? Até a própria Fernanda Montenegro faz suspense sobre o misterioso desaparecimento de Bia Falcão, a megera de Belíssima. Afinal, por trás do velho truque do corpo desfigurado e do caixão lacrado, quase sempre está alguém tentando forjar a própria morte. O autor Silvio de Abreu diz que esta é uma possibilidade, mas não confirma que ela continua viva. Armado ou não, o enterro da empresária arrancou lágrimas de 150 figurantes na tarde de segunda-feira. O cortejo negro (no qual até jornalistas e fotógrafos cenográficos trajavam luto, como só acontece nas novelas da Globo) se misturou com gente do elenco principal que convivia diretamente com Bia, como o irmão Gigi (Pedro Paulo Rangel), a amiga Ornela (Vera Holtz), as bisnetas Erika (Letícia Birkheuer) e Sabina (Mariana Ruy Barbosa), o ex-amante Murat (Lima Duarte) e o funcionário Alberto (Alexandre Borges). Até que se prove o contrário, Bia está ´enterrada´ na quadra 20 no Cemitério São Paulo, debaixo de uma bela estátua de mulher que muito se parece com escultura que enfeitava a sala da vilã na fábrica Belíssima. Não se trata de cenografia. O trabalho máximo da produção da novela foi fabricar uma lápide com a identificação ´Família Assunção´. De resto, o monumento já estava ali, onde na verdade jaz a família Kherlakian, que alugou seu túmulo para a Globo. Leia trechos da entrevista de Fernanda MontenegroComo se despede da Bia Falcão, se é que se despede? É, nunca se sabe. Novela é uma obra aberta, como eles dizem, tudo acontece. Eu fui, na verdade, contratada para fazer o que eu estou fazendo agora. O Silvio pensou a novela desse jeito. Os primeiros capítulos foram uma espécie de prólogo. Agora é que ela vai começar. Silvio de Abreu, numa entrevista ao ?Estado?, chegou à conclusão de que a Bia é uma vilã com razão, porque não age assim, loucamente. Como você vê a personagem? Ela é uma assassina em potencial, sem dúvida. As razões são pragmáticas, e o poder mata, seduz, compra e se vende também. E eu acho que por este ângulo, a Bia tem muito da hora em que a gente está vivendo neste país. É um país que diz que não mata, e mata; que diz que não rouba, e rouba; que diz que vai salvar o pobre, e não salva. Você não quer, não pode, não agüenta mais levar uma novela inteira? Vou dizer a você: hoje em dia, eu preciso ser um leão, e só sou uma leoa. Não sou um leão para agüentar uma novela que dura um ano. E quanto mais se estica a novela, quanto mais a produção se estimula no melhor, mais trabalho se tem. Houve mesmo uma tentativa da Globo de mantê-la no ar? Não houve nada disso. A sinopse está sendo seguida rigorosamente. Eu fui contratada para estes capítulos e não estou fazendo leilão da minha permanência na novela. Acho que se a Bia continuasse, a trama ficaria castrada, porque muita coisa depende da morte dela. Silvio, ele de novo, citou você - uma atriz indicada para o Oscar e está na novela das oito - para exemplificar o funcionamento do show biz brasileiro. Quais são as vantagens e desvantagens desse modelo? Só temos vantagens. Temos uma frente de atores de altíssima qualidade, e o teatro e o cinema não absorvem essa mão-de-obra. E nada impede que você se multiplique para realizar a sua vida. Não tenho nenhum preconceito com relação à TV. Ela não é o meu chão, mas eu tenho muito prazer em levar para a TV a experiência que o palco me deu e me dá. O Lima Duarte disse que o Silvio o convenceu a participar da novela dizendo que ele seria ?marido da Irene Ravache e amante da Fernanda Montenegro?. O que foi que ele disse para convencê-la? (risos) Olha, eu sonho em trabalhar com o Lima desde o Teatro de Arena, nos anos 60, mas a vida não nos juntou. Eu conheço a Irene desde que ela tinha 17 anos e apareceu num concurso do Teatro dos Sete, para freqüentar o curso do Gianni Ratto. Trabalhamos numa novela da Excelsior, mas acho que nem chegamos a contracenar. E o reencontro com o (Gianfrancesco) Guarnieri? O Pedro Paulo Rangel, a Ivone Hoffmann, que faz a Matilde e é uma atriz maravilhosa de teatro. Eu conheço a Carmen Verônica desde o teatro de revista. É um encontro de ?n? companheiros de vida, com as mesmas memórias. E é quarta novela com o Silvio, não? Sim, e eu acho que essa novela tem algo realmente novo, como Guerra dos Sexos teve. Ela é roteirizada quase como se fosse cinema. Só falamos o essencial, nossos diálogos não sobram. A minha personagem vai à casa da Katina (Irene) e do Murat (Lima) e em poucas falas curtas desencadeia o problema: ?Não é seu filho. Ela estava grávida. Agora vocês se virem. Tenham um bom dia.? E tem também uma coisa - Deus proteja o Silvio - que são esses ganchos dentro do capítulo. Cada break parece o final de um capítulo, e ele está agüentando isso até agora. Está gostando de fazer uma personagem tão chique? Estou fazendo cinema há quatro anos. Só no Casa de Areia (2005), eu fiz cinco velhas, uma delas velhíssima. Em O Outro Lado da Rua (2003), sou uma coroa perdida, uma senhorinha já entrada em idade, também pé-de-chinelo. Fiz a mãe do Prestes, em Olga, outra senhora. Fiz também Redentor (2004) e minha personagem também começa pé-de-chinelo. De modo que carrego as roupas da Bia com muita alegria. Me penteiam bem, me maquiam bem. Tem gente que comenta ?nossa, você tem uma pele boa? e eu digo ?os anos estão aqui, é só olhar com cuidado?. Bia Falcão foi inspirada na consultora de moda Constanza Pascolato? Não. Eu acho que a Bia é mais conservadora na roupa. Constanza tem uma elegância tradicional, mas com um toque irreverente. Ela é a mulher mais elegante que eu vejo neste mundo da moda. Ao mesmo tempo, é audaciosa, sem nunca perder a medida. Já a Bia não é audaciosa, é enquadrada. Tem gente que diz que não vai continuar acompanhando a novela depois que a Bia Falcão sair. Vai sim. Ninguém pode imaginar o que vem de horror por aí. Confio no taco do Silvio de Abreu, porque é a quarta novela que faço dele. É uma cabeça de uma inventiva... Pode ter igual, mas melhor não tem.

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