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Medo no ar

Nascemos, crescemos e morremos sob a penumbra dos nossos anseios e inseguranças

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2022 | 03h00

 

O medo é uma forma eficaz de controle. Zygmunt Bauman escreveu que é o nome da “nossa incerteza: nossa ignorância da ameaça e do que deve ser feito” (Medo Líquido, Zahar, p. 8). O sociólogo afirma que há os de primeiro grau, que compartilhamos com os animais: risco de vida, por exemplo. Seres vivos apresentam algum tipo de receio sempre. Os humanos acrescentamos “medos derivados”: uma sensação de vulnerabilidade e de insegurança que já não depende de uma ameaça direta. 

Diante dele, aceitamos restringir nossa liberdade. Aliás, passamos a entregá-la de bom grado. Segurança parece ser um lugar muito mais quentinho do que valores como habeas corpus ou pluripartidarismo. Golpes sempre contaram com o fantasma dos pavores coletivos: 1937 e 1964, no Brasil; 1966 e 1976, na Argentina; 1973, no Chile. Ele embasava ditaduras de direita e ajudava a prolongar a vida de governos autoritários de esquerda. Stalin e Pinochet sabiam que uma população apavorada era submissa. 

Temer abre universo vastíssimo. É provável que segure casamentos, adie trocas de emprego e crie barreiras contra ousadias pessoais e profissionais. A frase do historiador francês Lucien Febvre valeria para a Idade Moderna e para hoje: “Peur toujours, peur partout” (medo sempre e em toda parte). 

Nascemos, crescemos e morremos sob a longa penumbra dos nossos anseios e inseguranças. Os perigos reais e imaginados dialogam e multiplicam-se em associação fértil. Os que ousam podem ser punidos com algum desastre e são usados como exemplo pela nossa zelosa acomodação. Somos – ou ao menos eu sou – indivíduos profundamente covardes. Exceção? As narrativas que fazemos sobre nós e nossos enfrentamentos com o mundo. Nelas, viramos Aquiles invencíveis. 

Todos os dias, eu recebo vídeos nos grupos de WhatsApp, mostrando novos golpes, riscos maiores e violências variadas. O “lar doce lar” é tomado de riscos de acidentes. A rua? Um campo minado que necessita de couraças cada vez mais pesadas. Relações são arriscadas. As festas contêm armadilhas. Respiramos medo. 

Amuletos, medalhas e cristais para alguns; livros de autoajuda para outros, treinamento incessante para os que traduzem sua angústia em qualificação eterna. Muitos são os recursos. Todos apresentam alguma falha. Não existe magia ou ação absolutas para a segurança.

Nem sempre é confortável mostrar nossa angústia. Preferimos usar termos eufemísticos: estratégia, prudência, astúcia. 

Antes da viagem, podemos ter informações sobre os riscos de cada lugar. Durante a estada no hotel, você tem medidas para proteger os bens no quarto, para evitar acidentes na piscina ou cobranças indevidas. Cuidado ao usar seu cartão: as maquininhas podem ser fraudadas! Muita atenção com malas no aeroporto. Está em Paris? Cuidado com “o golpe do anel”? Não sabe qual é? Leia tudo sobre ele na internet. No Rio? Alguém se oferece para limpar seu sapato de um aparente dejeto de pombo? É golpe! Em São Paulo? Nunca pegue o celular na Paulista. Ele será roubado! Bebidas em bares e casas noturnas? Há chance de soníferos e golpes de “boa-noite, cinderela!” e você amanhecerá, no mínimo, sem um rim em uma banheira de hotel. Sua internet despeja mais riscos na sua tela que o Amazonas joga água doce no Atlântico. 

Vocês, prudente leitora e equilibrado leitor, sabem que o mundo tem riscos e que os golpes existem. Os medos diretos são reais. Há golpes e assaltos em todo lugar. O excelente filme Nove Rainhas (2000, Fabián Bielinsky) mostra, em uma cena antológica, uma rua de Buenos Aires tomada por picaretas e golpistas. 

Sim, os riscos existem. O que nos mata é que, além do desafio real, existe o medo macerado, curtido, decantado e orgânico. Os medos derivados possuem autopropulsão. 

Aceitamos cada vez mais câmeras, raios X, revistas, portas giratórias que trancam, pois sabemos que tais medidas podem nos proteger. O medo cala e solapa o edifício da liberdade. 

Há alguns anos, decidi assumir uma dupla atitude. Por um lado, evito lugares mais perigosos, horários com mais problemas ou ostentação de celular na calçada. Faço seguros, observo como está a rua antes de sair do carro, reforço trancas e alarmes em casa. Realizo exames médicos preventivos. Tomo muitas medidas, mas falta a segunda opção: não viverei para o medo. Os riscos estão ao meu redor, tento saber deles e evito viver para eles. É um pouco da atitude de Ulisses na Odisseia: sei das sereias que atraem marinheiros aos rochedos, continuo querendo navegar e conhecer, mesmo amarrado ao mastro do navio. 

O ato aristotélico de coragem é avançar consciente do medo. Eu não desejo ser dominado pelo que temo. Aprendi também que quem oferece segurança quase sempre é do padrão mafioso: “... pague para que nós possamos protegê-lo de nós mesmos”.

Preciso respirar. O medo está diluído no ar. Em ano de eleição, seu temor pode conduzi-lo às urnas. Seria bom carregar sua esperança também. 

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