Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Medo de viver

A peça Disney Killer, que estreia sexta, expõe os temores humanos por meio do amor e da violência

, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2011 | 00h00

Um casal de irmãos vive encarcerado em sua própria casa. Não à força, mas por vontade própria. Em meio à sujeira, prendem-se à infância desde a perda dos pais, alimentando-se praticamente de biscoitos, chocolates e pílulas para dormir. Com a peça Disney Killer, o dramaturgo britânico Philip Ridley estreou nas artes cênicas em 1991 causando estrondo: muitos críticos ficaram chocados com a violência com que era apresentada a falta de rumo da sociedade, especialmente dos adolescentes. "Escrevo sobre o que acontece hoje - ou talvez amanhã de manhã", provocou Ridley, contestando as críticas. É justamente esse toque de ousadia que marca a versão nacional, que estreia sexta-feira no Espaço Cênico do Sesc Pompeia.

"Há dez anos que tento montar essa peça", conta o ator e diretor Darson Ribeiro. "E não conseguia pois enfrentava desde problemas de agenda dos atores convidados até um certo temor de patrocinadores em associar sua marca à essa história." Não se trata, de fato, de um material leve. Presley (Ribeiro) e Haley Stray (Samantha Dalsoglio) são os gêmeos que vivem isolados em sua casa, repetindo diariamente os hábitos criados pelos pais quando eles eram crianças e atormentados por pesadelos sobre violência e luxúria.

A rotina sofre um abalo com a chegada de Cosmo Disney (Felipe Folgosi), que vive protegido por um homem muito alto e misterioso, Pitchfork Cavalier (Alexandre Tigano). A entrada em cena da dupla, aliás, é impactante: Cosmo chega vomitando e Pitchfork encobre a cabeça com uma máscara, que permite ver apenas seus olhos pouco amistosos e parte da boca, que nada diz.

Ao contrário dos irmãos, que buscam frear o tempo e se estabilizarem no feliz período de infância ao lado dos pais, Cosmo sempre viveu praticamente por sua conta, obrigado a enfrentar sozinho seus problemas, ou seja, a amadurecer precocemente e sem chance de guardar lembranças felizes da infância.

Como Haley está dopada, dormindo, e Pitchfork apenas responde às ordens, estabelece-se um duelo verbal entre Cosmo e Presley, marcado pela violência e sedução. Cosmo tem "o rosto perfeito, como um astro de Hollywood: bronzeado, dentes branquinhos, olhos resplandecentes, cabelos brilhantes", como ele próprio se define. Já Presley usa um pijama surrado, tem os dentes estragados, cabelos desgrenhados e vive atormentado pelo mundo exterior, onde tudo parece ser sórdido.

O confronto entre eles transforma-se em um jogo fantasmagórico e verborrágico, com nuances de surrealismo que expõe e discute o medo do presente em contraponto à felicidade do passado. "O homem dos nossos dias abriga conflitos ainda mais intensos - e devastadores - ou mais fecundos, que os de todas as outras épocas", acredita Darson. "Há uma busca desesperada, mas persistente, de novos valores. Uma busca que vai além dos sistemas. Meu objetivo é evidenciar a essência humana por meio do medo da morte ou simplesmente o medo de viver ou de parar de viver."

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