Florence Lo/Reuters
Florence Lo/Reuters

Medo de ficar por fora

A falta de indicações para o novo aplicativo de áudios deve ter levado muitos ao divã

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2021 | 03h00

FoMo, ou Fear of Missing out (medo de ficar por fora), é um termo cunhado na Revolução Tecnológica, mas que sempre esteve entre nós. 

Aristóteles, Hegel, Darwin, todos que tentaram tirar o homem da condição de mero animal e classificá-lo como político, altruísta e social, deixaram de lado o FoMo como condição essencial à sobrevivência e sucesso da espécie, além do polegar, comunicação e cérebro avantajado.

Imagino que atenienses tenham experimentado esse medo há milênios: “Ainda não viu a última peça de Sófocles? Maior tragédia. Polêmica: filho mata o pai e fica com a mãe. Vai dar o que falar...”. O mesmo deve ter rolado na Judeia: “Não ouviu o Sermão da Montanha? Ficou por fora! E a versão impressa vai demorar”.

Músicos romanos cantariam: “O sonho acabou. Quem não dormiu com Marco Antônio nem sequer sonhou...”. Teria uma versão apócrifa: Quem não dormiu com a Cleópatra nem sequer sonhou...”.

Na Renascença, a ansiedade de tanta novidade mataria mais do que a cólera e o medo de cair da Terra redonda. Novos mundos sendo descobertos, e o povo que não sabia como é um caju e que gosto tem, não fumou tabaco, nem comeu chocolate, se sentiria pária.

A falta de indicações para o Clubhouse, o novo aplicativo de áudios, de que você já deve ter ouvido falar, que a pessoa só participa se for convidada e usuária da Apple (só opera no iOS), deve ter levado muitos ao divã, com sintomas de falta de ar, raiva e ansiedade: FoMo.

Pelo menos no divã do mundo virtual, as redes sociais, a restrição foi debatida. Teve gente indignada que tuitou: “Esse aplicativo é elitista!”. O desabafo era como se dissesse, nas entrelinhas, quero fazer parte, preciso ver do que se trata, não me deixem fora. E se o ombro amigo, ou a postagem do seguidor, tentasse consolá-lo:

– Mas tem tantas redes: Face, Insta, LinkedIn, Telegram, WhatsApp, Twitter, Pinterest, YouTube, Snapchat, Reddit, TikTok...

– Não posso ficar por fora! – diria.

Uma amiga me convidou, disse que me serviria profissionalmente. Aceitei, mas ainda não naveguei. A segunda amiga me convidou, disse que é a minha cara. Falei que eu já estava nele. Ficou furiosa:

– Deixei de convidar meu namorado pra te convidar, pensando em te ajudar!

Explica-se: um usuário só pode convidar dois amigos, ela gastou um convite comigo.

Clubhouse começou há quase um ano. Lançado com investimentos de fundos americanos em março de 2020 por US$ 10 milhões, em maio já valia US$ 100 milhões, no começo de 2021, US$ 1 bilhão (segundo Forbes e Reuters).

Mas bombou no começo do mês, pois o atual homem mais rico do mundo, Elon Musk, da Tesla e construtor de foguetes, começou a tagarelar sobre o que vinha à mente, de pandemia a dicas de investimentos. 

Claro que o distanciamento social, que deu em isolamento pessoal, levou uma quantidade enorme de pessoas com saudades de um bom papo-furado no café, livraria, pub, a bisbilhotar a opinião alheia. 

O Clubhouse é dessas engenhocas bem boladas, que vieram pra ficar. Porque tem um protocolo próprio e, aos poucos, vai encontrar seu nicho. Aliás, como todas as redes sociais, começa uma incógnita, até focar. 

O Twitter, por exemplo, no início, servia para celebridades contarem sua rotina em 140 caracteres: “Acordei, estou bem melhor, passou a rinite, mas a obra em cima continua me atormentando. Help!”.

Aos poucos, foi descoberto pela mídia e políticos. Virou pauta de debates e vitrine de informação. Como LinkedIn, virou papo entre quem emprega, quem contrata e quem quer trabalhar.

O Clubhouse lembra as jurássicas salas de bate-papo da infância dos servidores da internet. São salas virtuais em que moderadores moderam, e ouvintes escutam. Podem ser abertas ou não. Podem ter no máximo 5 mil pessoas. O som não é filtrado ou produzido como num podcast. A graça é ter o dia a dia comum por trás.

Visitante pode perguntar depois de levantar a mão. Acabada a sala, nada fica gravado. Por enquanto, os algoritmos não comandam as indicações das salas. Some a sensação de pertencer a uma bolha. Veremos como os concorrentes vão reagir.

A rede social de voz “poderia resultar em desastre, especialmente com os ânimos exaltados da internet hoje, mas não foi o que aconteceu”, atesta Ronaldo Lemos, do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro. 

Ele fala que o aplicativo se tornou uma plataforma para diálogos construtivos, “epifânicos”, que lembram os primórdios da internet. 

“Impressão de que é uma mistura de rádio AM com o antigo disque-amizade... Ouvir as pessoas falando sem precisar necessariamente participar da conversa dá uma estranha calma. Faz sentido. O rádio enquanto mídia é acolhedor e até mágico. Não por acaso, Marshall McLuhan chamava o rádio de mídia quente, emocional. Enquanto a televisão era uma mídia fria”, resumiu.

Aproveite para entrar enquanto a máquina do ódio ainda não o descobriu, investidores e acionista não apertaram o cangote dos conteudistas, para entubar usuários de anúncios ou vender seus dados.

*É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

Tudo o que sabemos sobre:
Clubhouse

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.