Medo com bom humor

Na coleção Meus Monstros, o espanhol Enric Lluch trata o tema com sutileza

BIA REIS, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h10

A literatura infantil sempre foi povoada por fadas, animais, príncipes e princesas. Dragões, bichos-papões e outros monstros permeiam as histórias, mas são, em geral, personagens secundários. Agora, nas mãos do escritor espanhol Enric Lluch, figuras assustadoras protagonizam a coleção Meus Monstros (publicada pela FTD), com enredos inusitados que tratam, com sutileza, da dificuldade em aceitar o diferente e de preconceito. Uma boa oportunidade para falar sobre o medo com as crianças e, claro, se divertir.

Lluch reúne fantasia, humor e suspense em cinco contos narrados a partir do ponto de vista de personagens extraordinários.

Depois de ouvir que o museu onde mora está prestes a fechar, uma múmia busca seu melhor amigo, um leão empalhado, e, disfarçados, decidem fugir. Aterrorizante por natureza, a múmia ganha simpatia dos leitores em sua tentativa de chegar - de ônibus - ao Egito, a terra das múmias, como ela própria define.

Outro protagonista é o esqueleto Ossudinho, que se apaixona pelo futebol quando acha uma revista de esportes repleta de imagens de jogadores. Sua mãe explica que esqueletos são diferentes de humanos, e ele revela o desejo de se tornar um atleta.

Lluch também narra com bom humor as aventuras do vampiro Ladislau, que sai pelas ruas à procura de um dentista para afiar os dentes e morder suas vítimas.

As outras histórias fazem referência a dois grandes clássicos da literatura infantil: João e Maria e Branca de Neve.

No conto sobre o homem do saco, Lluch conta a chegada do personagem a uma cidade onde moravam crianças desobedientes, terríveis, que não comiam toda comida nem iam para a cama na hora determinada. Era justamente o que o homem procurava. Feliz, ele rapta os meninos e as meninas e os leva para casa para engordá-los. A lembrança de João e Maria aproxima o leitor, mas o desfecho em nada lembra a história.

E tem a Bruxosa, uma bruxa gulosa, faminta por sanduíche de lula frita. Cansada de trabalhar na Branca de Neve, ela é orientada pela feiticeira mais enfeitiçadora que existe a se mudar para a história de João e Maria.

Um dos pontos altos da coleção são as ilustrações, produzidas por diferentes desenhistas, três espanhóis e dois argentinos.

Versão brasileira. Após ter textos traduzidos para o inglês e o francês, Lluch chega ao Brasil em versões feitas pela escritora Heloisa Prieto, autora de diversas obras para crianças e jovens que mexem com o medo, como 1001 Fantasmas, Monstros e Mundos Misteriosos e Bebê Vampiro.

Neste trabalho, Heloisa teve liberdade para também criar. "A editora FTD me deu carta branca, permitiu que eu praticamente transcriasse o texto, de modo a destacar o humor negro do original. Pude adotar uma linha mais criativa. Em O Homem do Saco, por exemplo, dialoguei bastante com o homem do saco preto", conta a escritora.

Grande estudiosa do terror na literatura infantil e tradutora de livros do gênero, Heloisa cresceu ouvindo e lendo histórias amedrontadoras. "O terror nos remete à condição humana. É um espaço de igualdade e mistério compartilhado."

A naturalidade com que a escritora trata do assunto se contrapõe à dificuldade que os pais têm, na maioria das vezes, de falar sobre o medo com as crianças. "Os adultos, às vezes, temem mais os medos que atribuem às crianças do que as próprias. Elas gostam da dualidade medo e coragem. Quando as privamos desse embate, impedimos que elas se apaixonem por uma história."

Para Heloisa, a coleção Meus Monstros é, na verdade, de "terrir". "O terror, enquanto gênero, não deixa de ser uma forma de nos fazer rir de nós mesmos, da nossa vulnerabilidade."

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