Meditação sobre o destino (I)

Tradutor de Tristes Trópicos - cuja edição brasileira, de 1957, foi revista pelo autor - publicou no caderno uma série de ensaios sobre o livro

Wilson Martins, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2010 | 00h00

11.1.1958

A profunda originalidade do sr. C. Levi-Strauss, em Tristes Tropicos (...) manifesta-se no "ponto de vista" e no "tratamento da materia". Pela primeira vez, as populações amarelas dos "dois tropicos" - o densamente povoado da Asia e o infrapovoado das Americas - são consideradas filosoficamente, para além do seu interesse puramente, etnografico ou historico. A novidade é sobretudo sensivel no que se refere ao indio brasileiro. Até agora, os nossos silvicolas foram objeto de estudos conscienciosos e mais ou menos aridos, por parte de respeitaveis especialistas presos ao quadro de uma observação "objetiva", isto é, no caso, imediatista e limitada; ou eram pasto da curiosidade suspeita daqueles "exploradores" a que alude o sr. Levi-Strauss, em cujas mãos a aventura sem seriedade transformou-se num "oficio". (...) O autor de Tristes Tropicos teve ocasião de confirmar concretamente o seu desprezo absoluto por esses aventureiros, que são mais os aventureiros da ciencia do que os aventureiros da aventura: recusando, pela presença, na comissão julgadora, de alguns desses pretensos descobridores de novos mundos, o premio da "Plume d"Or", conferido ao seu livro.

Já para o sr. Lévi-Strauss, o homem, primitivo ou não, interessa sobretudo pelo que o ultrapassa: assim se explica que haja substituido a descrição pela interpretação. Se a maquilagem dos Caduveo ou o sistema social dos Bororo lhe prendem a atenção - uma atenção aguda e criadora - é menos pelo que são do que pelo que revelam: "esses camponios esfarrapados, perdidos no fundo do seu pantano, proporcionavam um espetaculo bem miseravel; mas a sua propria decadencia só tornava mais sensivel a tenacidade com que tinham preservado alguns traços do passado", escreve ele, em certo momento, numa observação que se pode generalizar para todos os agrupamentos que estudou. Testemunha do fim das raças indigenas, tanto as do Brasil quanto as da Asia, pois estas ultimas mostram ao europeu o retrato assustador do seu futuro, isto é, de uma decadencia - o sr. Lévi-Strauss procura descobrir-lhes a "significação", penetrar, através dos lastimaveis bandos errantes dos Nhambiquara, por exemplo, o segredo do homem em geral, e o segredo do homem americano em particular.

Não é à toa que o mundo destroçado de broncos selvagens americanos lhe inspirou uma tragedia corneliana, a "Apoteose de Augusto": é que, na historia do homem, os dois extremos se tocam em sua significação essencial, ainda que o grande enigma continue a ser o vacuo enorme que os separa. (...)

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