Medina quer investir no carnaval carioca

O empresário Roberto Medina, responsável pela realização dos três Rock in Rio e do show de Frank Sinatra no Maracanã, anunciou, na semana passada, a criação de uma nova empresa, a Dream Factory, que será presidida por ele e vai cuidar de grandes eventos ao vivo em todo o País. Com a experiência acumulada nos últimos 20 anos, pretende focar seus investimentos (calculados em R$ 120 milhões, vindos de parceiros e patrocinadores, em sete anos) em três áreas, além de shows: o carnaval, o réveillon e o futebol. Medina ainda não tem um cronograma, mas planeja, para o segundo semestre, na Cidade do Rock, o festival Made in Brasil, com quatro dias, uma atração internacional e três brasileiras. "O modelo da Dream Factory é o das empresas internacionais que atuam nesse setor, como a norte americana S.F.X. e a mexicana C.I.E.", adianta Medina. "Podemos até trabalhar em parceria. Eles entram com o conteúdo, ou seja os artistas que têm sob contrato, e nós com o gerenciamento. Os Rock in Rio provam que fazemos isso melhor que eles." A C.I.E., que chegou ao Brasil este ano, comprou, no Rio, o ATL Hall (ex-Metropolitan) e montou, em São Paulo, o musical Les Misérables, fez contatos com Medina, mas nada foi fechado. Essa empresa vende shows de estrelas pop internacionais, entre eles Madonna e o grupo irlandês U2, que estarão em turnê no segundo semestre e poderiam abrir o Made in Brasil. "É uma hipótese; por enquanto, não passa disso", desconversa Medina. O próximo réveillon é um projeto mais concreto, embora Medina não seja o único interessado na festa da Praia de Copacabana. "Reunir 2,5 milhões de pessoas é o mais difícil e isso nós já temos", ensina o empresário. No entanto, a Riotur, empresa municipal de turismo que organiza o réveillon e o carnaval, informa que outros pesos pesados do entretenimento ao vivo já enviaram propostas detalhadas, enquanto a de Roberto Medina ainda não chegou. A assessoria de Imprensa do órgão cita a espanhola Alquimia (com sede em Barcelona e responsável pela festa de centenário do clube que leva o nome da cidade), a brasileira Celebration (que faz o réveillon de Brasília há dois anos) e a francesa Eca2 (criadora do show de encerramento da Copa de 1998 e pelo réveillon do milênio na Torre Eiffel). Medina também está interessado nas escolas de samba do Rio. Quem organiza o concurso do Grupo Especial, no domingo e na segunda-feira gorda, é a Liga das Escolas de Samba, cujo lucro vem da bilheteria e da venda do direito de transmissão e comercialização do vídeo. "Não concorremos com ninguém, pois só queremos somar os setores que atuam no carnaval", avisa Roberta Medina, filha de Roberto que será diretora-executiva da Dream Factory. "Temos de reconhecer que a transmissão do carnaval não é boa, precisa melhorar", completa ele. Para o esporte, Medina tem um modelo a seguir: os torneios da National Bascketball Association (NBA), dos Estados Unidos, que conjugam jogos e shows musicais em estádios lotados. "O futebol só dá certo se os jogos são encarados como espetáculo", teoriza Medina. "Por que não tratar o campeonato brasileiro como a Copa Européia ou criar uma nova Copa do Mundo, cuja marca tenha tanto impacto quanto a atual?" Há ainda o Rock in Rio 4, previsto para janeiro de 2003, que começa a ser pensado no segundo semestre. Por causa da agenda dos grupos internacionais, é preciso montar o quebra-cabeça com antecedência. Até porque Medina pensa numa edição dupla do evento. "Tenho a intuição de que o próximo Rock in Rio vai ocorrer em dois continentes. Seria interessante um festival que não parasse; quando a noite acabasse aqui, estaria começando em outro lugar", sonha ele. Um Rock in Rio aqui e na Austrália? O empresário desconversa. "Quem sabe? Por enquanto é você quem está dizendo isso." Medina tem certeza de que aposta num setor em pleno crescimento. "O entretenimento ao vivo é a mídia atual, mas ainda encontra resistência dos departamentos de marketing porque seu retorno é de difícil afericação", explica. "A experiência do Rock in Rio 3 mostrou que esse retorno é grande, especialmente se agregado à questão social. O público grava as marcas envolvidas nesses eventos e com simpatia." "Roberta torna a produção viável e eu fico livre para criar, ter novas idéias, que é o que faço bem", explica Medina. Apesar de ter identidade jurídica independente, a Dream Factory funciona no mesmo prédio da Artplan, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul do Rio. "Essa divisão de trabalho já ocorreu de fato no Rock in Rio 3." Na verdade, Roberta está nesse setor há mais tempo, pois cuidava dos shows e da montagem da árvore de Natal da Lagoa. Aos 23 anos e terminando o curso de Publicidade na Pontifícia Universidade Católia (PUC) do Rio, ela é a terceira geração dos Medinas que trabalha no ramo. O pai de Roberto, o comerciante Abrahan Medina, revolucionou a televisão brasileira nos anos 50, ao criar, na TV Tupi, o programa Noite de Gala, um show de variedades em que se apresentavam todas as estrelas internacionais de passagem pelo País. Medina não disfarça a satisfação com a história. "Meu pai não produzia shows. Inventou o Noite de Gala para vender televisões encalhadas em sua loja de eletrodomésticos, a Rei da Voz", lembra ele. Depois, Abrahan Medina teve casas noturnas e produziu shows históricos, até mesmo o que comemorou os 400 anos do Rio, em 1965. "Considerava-me um intelectual e entrei nesse ramo por acaso. Quando papai foi preso por desobedecer aos militares e não suspender o Noite de Gala em 31 de março de 1964, fui substituí-lo e não parei mais."

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