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Medidas de Candice Huffine incendeiam debate sobre perfil na moda

Modelo americana foi um dos destaques do lançamento do famoso calendário que, há 50 anos no mercado, vem se tornando item de colecionador

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2014 | 07h00

MILÃO - Aos 30 anos, a americana Candice Huffine acredita que suas generosas medidas físicas contribuíram para um avanço no mundo da moda. Ela foi um dos destaques do lançamento do famoso Calendário Pirelli, peça publicitária da empresa italiana que, há 50 anos no mercado, vem se tornando item de colecionador. E, na folhinha de 2015, precisamente no mês de abril, Candice aparece ostentando uma bela peruca e seios generosos à mostra, em pose de pin-up. Seu corpo vistoso destoa das demais 11 modelos, todas franzinas. Candice hoje é famosa justamente por ser uma “plus size model”, ou seja, aquela que veste manequins de tamanho maior que o tradicional 90-60-90.

“Figurar neste calendário tão respeitado é provocativo por mostrar que a mulher pode ser sexy e desejável sem precisar seguir os padrões da moda”, disse ela, em Milão, onde a empresa italiana promoveu o lançamento do calendário. “Espero que isso ajude a mudar a indústria fashion.”

Perto de outras modelos, como a brasileira Isabeli Fontana e a russa Sasha Luss, também presentes na festa, Candice exibe uma certa fartura nos braços, pernas e quadril. Mas, com 1,80m de altura e pesando por volta de 85 kg, ela definitivamente rompe o tabu de que corpo perfeito é aquele com medidas mais leves – no calendário, em pose de dominadora, com corpete negro de látex e seios à mostra, Candice exibe com orgulho um modelo tamanho 46.

Ela foi uma das primeiras escolhidas pelo fotógrafo Steven Meisel para figurar no calendário de 2015. Figura mítica no mundo fashion (realizou campanhas para as principais marcas, além de ter contribuído na descoberta e promoção de modelos como Linda Evangelista, Naomi Campbell e a brasileira Raquel Zimmerman), Meisel é um homem tímido e não participa de eventos públicos. Assim, não esteve presente na festa em Milão.

Mesmo assim, sabia que iria agitar o mundo da moda, como fez com a capa da Vogue Itália de julho de 2011, que marcou o lançamento estrondoso das curvas de Candice Huffine aos estilistas profissionais.

“Steven confiou em meu talento desde o início, mas, mesmo assim, quando recebi o telefonema confirmando minha presença no calendário, eu apenas pude balbuciar um ‘obrigado’”, relembra. “Sou uma mulher forte e confiante, o que se pode ver na foto do calendário.”

Ela é tão segura de si que, na quarta-feira, participou da abertura da exposição Form and Desire (Forma e Desejo), que reúne, no Palácio Real, as principais e mais icônicas imagens da história do calendário, como o início de então desconhecidas como Isabeli Fontana e Naomi Campbell. Candice foi a escolhida para degustar pratos especialmente preparados ao vivo por três chefes – e a modelo não se fez de rogada, provando com gosto.

Candice não foi a primeira modelo plus size a figurar no mimo da Pirelli, que exibiu uma redondinha Sophie Dahl no mês de fevereiro de 1999 e a não menos redondinha Pollyanna McIntosh, honrando o mês de dezembro de 2004. Mas nenhuma delas provocou tanto estrondo como Candice Huffine.

Nascida em Annapolis, Maryland, ela se consagrou como modelo ao aparecer em uma reportagem de 2010 da V Magazine cujo título, Curves Ahead, já salientava suas medidas. E, depois de clicada por Meisel para a Vogue Itália de 2011, ela foi alvo novamente da lente do fotógrafo, em uma reportagem publicada em setembro daquele mesmo ano.

Mesmo depois de famosa, Candice conta não ter alterado drasticamente sua rotina para se adaptar às exigências da moda. “Tento fazer ginástica, manter uma vida ativa, mas isso não quer dizer que vou dar adeus às batatas fritas”, diverte-se ela, que começou aos 15 anos – “e um corpo bem mais magro”. Mesmo ciente de não apresentar o perfil de modelo, conta que sempre sonhou com essa carreira.

E hoje, quando se consolida na profissão, Candice afirma com orgulho que sempre é cumprimentada por diversas mulheres gordinhas cada vez que aparece na capa de alguma revista. “Gosto de ser uma inspiração para elas, principalmente ao alimentar sua autoestima.”

Em sua cruzada pela quebra de tabu, Candice conta com o apoio das colegas. “Ela é linda”, atesta Isabeli Fontana, que soma agora sete participações no calendário da Pirelli. “Se eu fosse gordinha, não teria essa beleza – meu rosto ficaria quadrado.” “É incrível como ela convence que é feliz por ser bonita assim”, observa a russa Sasha Luss. “Sua presença mostra como os conceitos podem ser quebrados”, acredita a americana Gigi Hadid.

Críticos, no entanto, não comungam de tamanho otimismo. “Ela não seria convidada para desfilar, a não ser como participação especial”, acredita Lilian Pacce, crítica de moda que colabora com o Caderno 2. “As criações dos estilistas pedem modelos com as medidas tradicionais, necessárias para exibir seus novos trabalhos, que seguem sempre o mesmo padrão no tamanho. E ela não tem essas medidas.” 

Exposição

Em 2015, Milão vai ser a sede da Expo, enorme feira mundial que reunirá diversas nações – e o tema será alimentação. Como aquecimento ao evento, diversas manifestações culturais já acontecem na cidade, como a Form and Desire, seleção de cerca de 200 imagens que mostram as diversas facetas do Calendário Pirelli, desde sua criação, em 1964.

Polegada a mais já rendeu militância entre modelos

Candice Huffine mantém uma tradição de modelos cujas medidas destoam das tradicionais. Allegra Doherty, por exemplo, apareceu nua na capa da edição italiana da GQ, em maio de 2001, depois de ter sido perfilada pela People Magazine em 2000 justamente por apresentar curvas nada longilíneas.

O assunto, desprezado por alguns, logo se tornou motivo de militância. A americana Amy Lemons, por exemplo, tornou-se uma adepta da causa – em setembro de 2009, ela figurou em uma reportagem da revista Glamour ao lado de outras seis modelos fora do padrão. Desde então, Amy abraçou a causa por uma imagem positiva do corpo, sem imposições restritivas e pedindo à indústria o fim do rigor pelas medidas ideais das modelos.

Angellika Morton é uma das pioneiras ao aparecer em ensaios de moda em 1997 – dois anos depois, ela se tornou a primeira modelo fora do padrão ao integrar o hall da fama do mundo fashion.

E Ashley Graham provou que não leva desaforo para casa ao contar, no talk-show de Jay Leno, em 2010, que um comercial de lingerie no qual participou sofreu uma edição: suas cenas foram simplesmente cortadas por ela não ter o perfil magro. A marca foi obrigada a se desculpar.

Já Barbara Brickner foi uma modelo plus size durante dez anos, período em que apareceu em diversos ensaios fotográficos – o mais famoso apareceu em 2000, quando participou do calendário da companhia Elena Miro, exibindo contornos generosos. / U.B.

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