''Medicina não é para ganhar dinheiro''

Paulo Niemeyer Filho avisa: a profissão é para quem quer se realizar...

Sonia Racy, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

Em qualquer emergência no Rio, não há quem não procure Paulo Niemeyer Filho na Clínica São Vicente. Por isso mesmo, os rumores de que ele teria tido um convite bilionário para medicar no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, está deixando os cariocas à beira de um ataque de nervos.

O neurocirurgião, que acabara de chegar de uma visita a Fábio Barreto - o cineasta, ainda em coma, recebe alta essa semana - jura que não pretende deixar o Rio. "Recebi, sim, o convite, mas vou esperar o Albert Einstein vir para cá." contou à coluna em seu consultório. O hospital pretende instalar uma unidade na Cidade Maravilhosa com ajuda de Eike Batista.

Filho de lagartixa, jacaré não é. Paulinho é filho do também neurocirurgião Paulo Niemeyer. Foi o DNA que determinou sua profissão? "Sempre tive grande admiração por meu pai e o desejo de ser como ele me levou para o mesmo caminho." Do que um sujeito precisa para fazer Medicina? De gostar dela, gostar de ler, de estudar e estar disposto a trabalhar muito. Mas adverte: Medicina não é profissão para se ganhar dinheiro. É para quem quer se realizar, sentir-se útil e dormir em paz. "Levam-se 20 anos para ser neurocirurgião. São seis de faculdade, cinco de residência e mais uns dez operando, para adquirir experiência. Uma vida intensa. Eu recomendo!" A seguir, trechos da entrevista.

Dizem que a neurocirurgia é a especialidade mais dura da Medicina. E a mais cética, já que não leva em conta doenças de fundo psicológico. É isso mesmo?

Fica simples colocar a culpa da doença no doente deprimido. Isso vai deixá-lo mais deprimido ainda. Mas não é raro que, ao se aposentarem, muitos entrem em depressão e fiquem doentes. Difícil é provar essa relação causa-efeito. O que já ficou claro é que o pós-operatório de um deprimido é mais complicado. O desejo de viver é fundamental para a recuperação.

O que é a depressão?

Pergunta difícil. É um desinteresse pela vida, acompanhado de sensação de prostração física e abatimento moral. Pode ser desencadeado por sofrimentos, perdas, problemas reais ou imaginários. Também pode ser sintoma de outra doença, como um tumor cerebral.

Para onde caminha a neurocirurgia?

Acho que, assim como todas as grandes cirurgias de hoje, ela deve acabar. Creio que não fará sentido, no futuro, abrir a cabeça, o tórax ou o abdome de um paciente. A solução para o câncer, por exemplo, certamente não será cirúrgica. O cérebro, entretanto, continuará sofrendo intervenções - mas por métodos não invasivos ou minimamente invasivos. Ao contrário da neurocirurgia atual - voltada apenas para a retirada da doença -, vamos ter uma neurocirurgia restaurativa, centrada no restabelecimento de funções cerebrais perdidas. Por exemplo, a falta de dopamina na Doença de Parkinson poderá ser corrigida, seja pela substituição desses neurônios atrofiados ou pela correção genética.

Já é possível produzir neurônios a partir de células-tronco? Há casos documentados com animais de laboratórios. Porém, são transformações sem controle e sem a certeza de que aqueles neurônios vão assumir as funções desejadas. Esse controle é o maior desafio dos pesquisadores.

Qual o impacto de tantos avanços na seleção das espécies?

O homem superou a seleção natural. O suporte que é dado pela sociedade, pela organização familiar e pela Medicina aos portadores de doenças genéticas faz com que esses pacientes superem a seleção natural e até transmitam seus genes.

A habilidade manual é importante para o cirurgião?

É claro que um cirurgião não pode ser estabanado, mas habilidade é sua quinta qualidade. Será que Ivo Pitanguy e Adib Jatene fizeram sucesso por terem habilidade ou porque eram grandes estrategistas cirúrgicos?

Nosso planeta tem condições de aguentar tanta gente?

Sempre existirão guerras, pestes e grandes acidentes naturais, que farão o controle do excesso. Esse problema genético certamente será corrigido pela Medicina, no momento certo.

O que você acha da cirurgia para a obesidade?

A obesidade é um problema de saúde pública recente, dos últimos vinte anos. A cirurgia surgiu porque o tratamento conservador tem resultados limitados. Acontece que essa cirurgia também não resolve tudo, porque muitos pacientes têm um componente compulsivo. Acabam por reincidir na obesidade ou a transferir a compulsão para o álcool, o cigarro etc. Fechar a boca destes obesos compulsivos equivale a fechar o nariz dos consumidores de cocaína.

Então, qual a saída?

A neurocirurgia começa a entrar nessa área, ainda experimentalmente, com a proposta de utilização de estimuladores, que funcionam como se fossem um marca-passo, atuando nos núcleos cerebrais que produzem a dopamina. Essa estimulação poderá reproduzir a sensação de satisfação que esses pacientes obtêm com as dietas hipercalóricas.

O que você considera o maior avanço da Medicina nos últimos tempos?

Posso falar dos últimos 500 anos. De longe, é o início da era genômica, que começou com a publicação da estrutura do DNA, em 1953, e se consolidou com o mapeamento do genoma humano. Essas descobertas abriram caminho para o entendimento das doenças e novos tratamentos.

Ao que você compararia, em termos de História?

Estamos revivendo a Renascença, quando os trabalhos de anatomia de Vesalius abriram um mundo novo. As perguntas feitas na época - para que serve o fígado, que doenças ele causa - são as mesmas de hoje sobre os genes.

E o cérebro, que é sua área?

Sabe-se muito pouco sobre ele... Principalmente sobre o psiquismo, que é o que nos diferencia dos outros animais. Olha, e quando falo psiquismo estou considerando também a linguagem, o raciocínio abstrato, a capacidade de planejamento. Duas vacas clonadas serão sempre idênticas. Mas isso jamais acontecerá com dois humanos. As doenças psiquiátricas ainda são misteriosas.

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