Medeia é revisitada em nova peça

Espetáculo propõe defesa da figura mitológica conhecida por matar os filhos

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2013 | 18h04

Medeia é a mulher que matou o irmão e, ao fugir da terra natal, jogou os pedaços ao mar para afugentar seus perseguidores. É a feiticeira que se apaixonou por Jasão e, quando preterida, resolveu vingar-se assassinando os próprios filhos. Eis a imagem que paira no imaginário ocidental, difundida pela mitologia grega e, especialmente, pela tragédia de Eurípedes. Mas não é essa a personagem que encontramos em Medeia Vozes.

No espetáculo, que a companhia gaúcha Tribo de Atuadores Ói Noiz Aqui Traveiz traz a São Paulo, Medeia livra-se da imagem de infanticida e aparece representada em outros termos: trata-se da mulher que ousou desafiar a política estabelecida, que é punida por seu senso de independência e liberdade, banida da cidade por saber de crimes que não devem ser revelados.

A base para esse Medeia Vozes – que foi um dos destaques da última edição do festival Porto Alegre em Cena – é o romance homônimo da alemã Christa Wolf (1929-2011). Em suas investigações, a escritora bebeu em outros estudiosos – de arqueologia, mitologia e sociologia. Retornou às bases do matriarcado primitivo e da fundação das sociedades. Tudo para chegar à conclusão de que a imagem que se perpetuou não é mais do que uma imposição dos valores e das necessidades do patriarcado.

"Medeia era uma curandeira, portanto, alguém que tinha uma relação muito forte com a vida”, comenta a atriz Tânia Farias, que interpreta a protagonista da montagem. “Naquela época, da origem do mito, também é preciso considerar o valor que se dava à questão da geração, a esse papel desempenhado pelo feminino. Por que justamente essa mulher, com essa consciência, se revoltaria contra seus filhos?”

Em meio à pesquisa para conceber a peça, o grupo do Rio Grande do Sul também se viu compelido a traçar paralelos com outras “Medeias” – que viveram em outras épocas e em outros grupos étnicos, mas enfrentaram perseguições e dificuldades semelhantes. Na trama, existe lugar para a indiana Phoolan Devi – casada aos 11 anos, diversas vezes violentada e espancada –, que conseguiu ser eleita para o parlamento de seu país. Cabem as vozes das ativistas políticas Rosa Luxemburgo e Ulrike Meinhof. E também o depoimento da modelo somali Waris Dirie, que denunciou a mutilação genital da qual foi vítima e tornou-se embaixadora da ONU. “São mulheres muito diferentes, de realidades distintas. Mas todas com um nítido traço de força, de tomar para si o seu destino”, observa a atriz protagonista.

Mesmo diante dessa miríade de depoimentos, o espectador não terá a impressão de assistir a um manifesto de pendor feminista. O esteio da obra continua a ser a história de Medeia – com os mesmos personagens e percalços que conhecemos. Apenas vista sob nova perspectiva. Ela não será condenada pelo povo de Corinto, mas por Acamante, conselheiro do rei que tem interesse em desacreditá-la.

Outro aspecto da personagem-título destacado pela montagem é sua condição de estrangeira. “Existe hoje uma exacerbação da fobia à diferença. Populações que precisam sair de seus lugares de origem para garantir sua sobrevivência. O objetivo, ao visitar essa figura da antiguidade, era falar de hoje, de questões que nos mobilizam como homens e mulheres deste tempo.”

Para que o público acompanhe a essa saga, não deverá sentar-se em uma plateia, mas percorrer o espaço atrás dos atores e das múltiplas cenas. Vê um banquete no palácio real. Aperta-se em uma pequena gruta. Depois, sente a areia afundar sob os pés, como se estivesse no deserto. São incontáveis cenários e figurinos. Além de dezenas de cheiros diferentes, que acompanham cada um desses ambientes. Como se a não linearidade do texto surgisse materializada.

"O espetáculo deve ser uma experiência, não algo a ser meramente assistido. A intenção é que ele afete o público pelos sentidos, e não apenas pela via racional do discurso”, pontua Tânia sobre o trabalho do grupo. Em suas criações anteriores, eles já priorizavam a potência ritualística das encenações. Um exemplo é Viúvas, Performance sobre a Ausência (2011), espetáculo que, para revisitar as ditaduras latinas, propunha uma viagem de barco pelo Rio Guaíba, seguida de uma visita a uma pequena ilha.

PRESTE ATENÇÃO

1. Nos cenários. A cada nova cena, o público movimenta-se e chega a novos ambientes, que recriam desertos, grutas e palácios

2.Nos figurinos, que foram criados pelos próprios integrantes do grupo e propõem uma leitura atemporal para os personagens

3. Nas diversas figuras históricas que são evocadas pela montagem, mulheres de diversas nacionalidades que trazem um depoimento de suas dificuldades

QUEM É

Ói Nóis Aqui Traveiz

companhia teatral

Aos 35 anos, é um dos mais importantes grupos do Sul do País. Priorizam espetáculos com caráter ritualístico e buscam envolvimento do público. Já criaram obras como O Amargo Santo da Purificação e Kassandra in Process.

MEDEIA VOZES

Teatro Vento Forte. R. Brigadeiro Haroldo Veloso, 150. 5ª a dom. (e de 15 a 20/10), às 20 h. Grátis – senhas a partir das 19h30

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