"Medéia" de Antunes é um espetáculo único

Que magnífica floração representa Medéia, a nova encenação de Antunes Filho, em cartaz no Sesc Belenzinho. Fênix que heroicamente empreende a desconstrução e reconstrução das técnicas e linguagens com que se expressa, ele faz da mutação a razão de ser da obra. Depois que rompeu seu último ciclo estético (durante o qual o ator Luís Melo esteve à frente de seus elencos), enveredou por uma linha de pesquisa que revela plenitude e emocionante maturidade com essa descarnada e visceral Medéia.Àqueles (como eu) que não ficaram convencidos pelos primeiros resultados da nova investigação, cristalizados em Fragmentos Troianos, Antunes dá uma lição. Exibe com sua Medéia a confirmação esmagadora de que estava na boa trilha. E mostra que a diversidade de períodos e fases que se pode observar em sua carreira é amalgamada por total coerência.Seu teatro sempre teve alvos éticos e humanistas, expressados em obras que desejam tocar o espectador, fazê-lo sentir e pensar, que visam, em última instância, a uma alteração na consciência que o público tem do mundo e de si mesmo. Do ponto de vista prático, a partir da constituição do Grupo Macunaíma, em fins dos anos 70, o processo do artista foi ancorado na formação e no trabalho com jovens atores, seus parceiros no exercício de um teatro ritual que na década de 1990 passou a mergulhar em raízes sagradas.Medéia, que Antunes Filho adaptou do original de Eurípides, é a tragédia da traição e da rejeição. A princesa, nascida da Cólquida (sudeste do Mar Negro), atraiçoou sua terra e seu pai, além de sacrificar o irmão, para seguir o grego Jasão por quem se apaixonou e com quem teve dois filhos. Na Grécia, em Corinto, Jasão abandona Medéia para se casar com a filha do rei Creonte. Enlouquecida de dor, Medéia vinga-se matando a noiva do ex-marido, o pai dela e os dois filhos que teve com Jasão, antes de fugir para Atenas.Antunes Filho lê a peça como a tragédia da natureza que, poluída, subjugada e conspurcada pela prole, finalmente vinga-se aniquilando-a. Troncos de árvore, dispostos no corredor que dá entrada para a sala de espetáculo e no lado direito do simples e eloqüente cenário de Hideki Matsuka, são testemunhas eloqüentes dessa degradação, assim como os troncos e a serra elétrica que, no prólogo, os soldados de Creonte carregam pelo palco.O espaço da representação, um retângulo, é requintado e despojado. Metade dele é tomado por uma arquibancada destinada ao público. A outra metade forma um corredor longo e estreito para o qual se abrem uma porta dupla ao centro de enorme parede branca e duas passagens laterais, fechadas por cortinas pintadas com cenas de destruição. Na extremidade esquerda do palco há um canteiro de terra e pedras sobre as quais estão velas acesas. De uma torneira aberta jorra um fio de água. A excelente cenografia de Matsuka está em perfeita sintonia com os figurinos severos e elegantes em preto (e branco) de Jacqueline Castro e Cristina Guimarães e com a soberba e discreta iluminação em tons de ocre e amarelo de Davi de Brito e Robson Bessa.Antunes Filho criou uma montagem simples, veloz, que se precipita a toques de tambor (que acompanham toda a ação) para o desfecho trágico. O espetáculo é rigoroso ao extremo. Recusa efeitos especiais e foge de toda grandiloqüência. A crispação que o percorre da primeira à última cena basta para dar-lhe a necessária cor. Mas a montagem está semeada de surpresas, repleta de pequenos achados magistrais. Por exemplo: por um breve instante Antunes Filho troca os bonecos que representam os filhos de Medéia por duas crianças de carne e osso. Elas aparecem fugazmente, correndo desorientadas, momentos antes da cena do assassinato. O recurso intensifica de modo apavorante o que está por vir.A movimentação dos grupos no palco, com o coro de mulheres de Corinto num lado e no outro as escoltas militares que acompanham Creonte e Jasão, é extremamente plástica. Estabelece uma coreografia cujo tema é a intimidação e a resistência.Os atores de Medéia atingem impressionante homogeneidade em seu desempenho. Formam um grupo compacto cuja energia suga o espectador para dentro de um universo terrível, onde testemunhará desesperados confrontos. Destaca-se no elenco Kleber Caetano, ótimo e flexível intérprete que confere personalidades e andamentos próprios aos quatro personagens que interpreta muito bem: Creonte, Jasão, o professor dos filhos de Medéia e o rei Egeu, de Atenas, amigo da mulher traída.Juliana Galdino, como Medéia, forma a medula do espetáculo. Sua interpretação hirta, arquejante, é o diapasão pelo qual se regulam todos os outros intérpretes. Intensamente expressiva, capaz de variações que atenuam e modificam a crispação, a atriz (como todo o espetáculo, aliás) demonstra um fôlego que leva o espectador a ficar a maior parte do tempo sentado na beirada da cadeira. E, não há dúvida, o público deixa o teatro pensando intensamente no que acaba de ver. A Medéia de Antunes Filho é um espetáculo obrigatório que tem porte de obra-prima.Medéia - Sexta, às 21 horas; sábado e domingo às 19 horas. R$ 20,00. Sesc Belenzinho (Avenida Álvaro Ramos, 991); tel. 6096-8143. Até 26/9

Agencia Estado,

09 de agosto de 2001 | 17h19

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