Mecânica dos trens e da literatura

Se apresentar problema mecânico, trem de ferro descarrila. O desastre é escândalo e noticiado em todos os meios de comunicação de massa. Em fins de julho, na China, dois vagões de um trem saíram do trilho e despencaram lá do alto do viaduto. 32 pessoas mortas. Semelhante à escultura de José Resende, a foto do acidente é trágica e bela. No entanto, desacreditou em parte um bem montado programa de modernização do país asiático.

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2011 | 00h00

Quando a obra de artista ambicioso vem bamboleando na bitola estreita da mesmice, ele deve dar-se conta de que a locomotiva que conduz apresenta sérias avarias. O maquinista tem de assumir ou não o risco do acidente regenerador. A assombrar o planejamento do futuro livro, o descarrilamento estético pode revigorar a obra literária à beira da insipidez. Tramas e personagens criados em obras anteriores morrem no desastre anunciado, que gera a fagulha propulsora da criação ousada, cuja escrita será um risco. Em virtude do ramerrame em que a locomotiva vinha sendo conduzida, os olhos do leitor crítico, já tomados pela malícia, serão surpreendidos. O julgamento sairá estampado nos jornais.

Adentremo-nos por estimulante desastre ocorrido na literatura brasileira em 1881. Machado de Assis era o festejado autor de quatro romances escritos segundo os conformes do movimento romântico. O último deles, Iaiá Garcia (1878), viaja bamboleando na bitola estreita da mesmice. O crítico Urbano Duarte não titubeia: "O cantor das Americanas, que acatamos e apreciamos, deve apimentar um pouco mais o bico de sua pena, a fim de que seus romances não morram linfáticos". Linfáticos: a que faltam vida, vigor e energia. Alertado, o romancista inspeciona a locomotiva e se dá conta das avarias.

Entre 15 de março e 15 de dezembro de 1880, Machado escreve os sucessivos capítulos das Memórias Póstumas de Brás Cubas. O maquinista está exausto pelo excesso de trabalho e doente dos olhos. Sua esposa lhe serve de foguista. Nas crises, ele dita mais de seis capítulos das Memórias Póstumas à doce Carolina. Brás Cubas como que diz ao crítico Urbano Duarte: Repare, estou a apimentar a escrita. Escrevo o novo romance "com a pena da galhofa e a tinta da melancolia". O vagão está prestes a descarrilar.

E descarrila em janeiro de 1881. Sacrificam-se trama e personagens linfáticos para que o narrador romântico renasça defunto das cinzas. No dia 30 de janeiro, Capistrano de Abreu faz na Gazeta de Notícias a pergunta do assombro de todos: "As Memórias Póstumas de Brás Cubas serão um romance?". Em seguida, responde-a: "O romance aqui é simples acidente". E toca a louvar o livro: "O autor é o primeiro a reconhecer a filosofia triste, e por isso põe-na nas elucubrações de um defunto, que nada tendo a perder, nada tendo a ganhar, pode despejar até as fezes tudo quanto se contém nas suas recordações". Produto de descarrilamento, as Memórias desnortearão a sensibilidade do leitor. Capistrano dirige-se a ele ao final da crítica: "Se entenderes o romance, há de passar algumas horas únicas - misto de fel, de loucura, de rictos. Se não entenderes, tanto melhor. É a prova de que és um espírito puro, consciencioso, firme, ingênuo, isto é, um pouco tolo".

A ingenuidade tola do leitor é o anteparo do acidente literário, Capistrano dixit.

Graças à lenha queimada pelo arlequinal foguista Mário de Andrade, Carlos Drummond vinha conduzindo em meados da década de 1930 o trenzinho caipira da escrita poética modernista. Já tinha publicado Alguma Poesia (1930) e Brejo das Almas (1934). O título do segundo é tomado de topônimo de cidadezinha mineira e traduz, ironicamente, o enfado do poeta, que se patenteia na epígrafe escolhida. Ela diz que a cidade exporta toucinho, mamona e ovos para Belo Horizonte e Montes Claros e que não se entende por que, tão próspera, continue com o nome de Brejo das Almas, que "nada significa e nenhuma justificativa oferece". O descarrilamento é iminente e fatal.

E o trenzinho caipira descarrila em 1940 com o livro Sentimento do Mundo. O mundo - o sentimento que dele tem o poeta - pode ser uma abstração, como, aliás, o foi no poema que abre Alguma Poesia. Ali, o mundo aparecia sob a forma risonha de sortilégio da vontade individual, bem ao gosto das vanguardas do início do século. Recordemos: "Mundo mundo vasto mundo./ Se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima não seria uma solução". Já o sentimento do mundo - no livro que leva por título a expressão - é objetivo e material. Ele está na imanência do corpo solitário e rebelde do poeta ("Tenho apenas duas mãos"), na solidariedade entre os homens (leia-se o poema Mãos Dadas), na emergência do operário como ator social ("Para onde vai o operário? Teria vergonha de chamá-lo meu irmão"), na violência da guerra contra Hitler ("O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos") e na ardência da utopia socialista ("Aurora,/ entretanto, eu te diviso, ainda tímida,/ inexperiente das luzes que vais acender/ e dos bens que repartirás com todos os homens").

Nos anos 1940 Mário Neme entrevista os jovens talentos brasileiros para montar o livro Plataforma da Nova Geração. Um dos entrevistados é Antonio Candido, que admira a sobrevivência do poeta mineiro no acidente fatal: "Carlos Drummond é um homem da outra geração, da tal que você quer que nós julguemos. No entanto, não há moço algum que possua e realize o sentido do momento como ele. Representa essa coisa invejável que é o amadurecimento paralelo aos fatos; o amadurecimento que significa riqueza progressiva, e não redução paulatina a princípios afastados do Tempo. Por isso, acho que tem mais sentido a maturidade de um homem como Drummond do que o verdor quase desnorteado e não raro faroleiro de todos nós".

SILVIANO SANTIAGO ESTÁ PASSANDO UM SEMESTRE LETIVO NA UNIVERSIDADE DE PRINCETON (EUA) COMO PROFESSOR VISITANTE

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