Mcbeth honra o Municipal

A magnífica versão de Bob Wilson para a ópera de Verdi

O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2012 | 02h11

"Na ópera, meu principal objetivo é facilitar a ESCUTA da música por meio daquilo que se vê; do contrário, melhor seria ouvir uma gravação num CD ou simplesmente fechar os olhos sentado na plateia de um teatro lírico."

Entre mil e uma informações e formulações teóricas que frequentam o recheado programa de Macbeth, de Verdi, mundialmente estreada na última sexta-feira no Teatro Municipal de São Paulo, esta frase, do encenador Robert Wilson, foi a que mais me marcou, porque vai direto ao ponto. A outra foi a inicial do seu texto: "Meu teatro é um teatro formal". Como as li imediatamente antes de a função começar (com 20 minutos de atraso), o impacto da montagem potencializou-se. Logo na curta abertura sinfônica, a entrada de Lady Mcbeth, em gestos estilizados e num ritmo vagaroso, ritualístico, típico do No japonês, e o foco apenas em seu rosto pintado de branco (evocação também da estética da Ópera de Pequim), conseguiram o impossível: os olhos, pregados na cantora, os ouvidos atentos à música.

A direção minimalista de Wilson é um requintado banquete visual, feito de escassas linhas, formas sugeridas. O máximo com o mínimo - é seu credo sutil. O diretor superpõe camadas de significado - ou vetores de escuta e visão. Tudo muito claro, límpido. À tragédia política na Escócia no século 11 somam-se a ambição pessoal de Lady Macbeth pelo poder e a tibieza de Macbeth (Shakespeare). O libreto enxuto induz a uma música igualmente enxuta, eficiente e memorável (Piave e Maffei): tudo isso se realiza de modo genial na partitura de Verdi. É incrível pensar que foram apenas três semanas de ensaio para um espetáculo que se impõe amadurecido no palco.

O elenco, nesse tipo de montagem, é exigido até o limite de suas possibilidades. Aos cantores, é preciso ter o amadurecimento de um grande ator, caso contrário, os gestos lentos podem ficar caricatos (como em um ou dois integrantes do coro que chegaram a provocar risos abafados). Nesse sentido, o par central só pode ser qualificado como magnífico. A voz irregular, o barítono Angelo Veccia compensou com uma teatralidade exata, justa. A soprano Anna Pirozzi, de seu lado, esteve um degrau acima: fulgurante, voz encorpada e ótima tanto nos graves (bastante exigidos) quanto nos agudos, ela incorporou o germe diabólico de sua empreitada do começo ao final. Verdi não queria belas e angelicais vozes; Angelo e Anna chegam bem perto do que o compositor pretendeu.

O elenco de apoio teve destaques como o ótimo baixo Carlo Cigni (Banco) e o tenor Lorenzo DeCaro (Macduff), assim como o coral lírico. A Orquestra Sinfônica Municipal parece desfrutar neste momento de um patamar muito bom de qualidade. Claro, afinal ela retornou à sua função original, a de orquestra de ópera, e tem participado de várias montagens em 2012. A direção segura de Abel Rocha também contribuiu para um espetáculo musicalmente bom.

Depois de muitos anos de isolamento, finalmente o Municipal está trazendo as óperas de Richard Wagner pioneiramente montadas por Luiz Fernando Malheiro em Manaus. E agora nos brinda com uma coprodução internacional, ao lado do Teatro Comunale de Bolonha.

Restaurado, reformado e nos trinques, o Teatro Municipal vive um momento virtuoso neste final de 2012.

Tomara que em 2013 não se interrompa, por mesquinharias políticas, este trajeto. A população de São Paulo precisa de um Municipal a mil no ano do bicentenário de nascimento dos dois maiores criadores líricos de todos os tempos. Wagner e Verdi merecem ser dignamente comemorados. Basta o aparato político-administrativo não atrapalhar.

Crítica: João Marcos Coelho

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