Mc Queen entre majestoso e macabro

Beleza Selvagem, mostra que ocupa o Metropolitan de Nova York, percorre 16 anos de criação do estilista britânico

Booth Moore, do Los Angeles Times/New York, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2011 | 00h00

"Estamos vivenciando um momento McQueen", disse Thomas P. Campbell na pré-estreia de Alexander McQueen: Beleza Selvagem no Metropolitan Museum of Art. Inaugurada quarta-feira, a mostra ocorre na esteira do casamento real, em que a noiva, Kate Middleton, usou o vestido criado pela sucessora de McQueen, Sarah Burton, e do Gala do Costume Institute, uma superprodução que atraiu grandes nomes para celebrar a obra de McQueen.

A lista de convidados incluiu Blake Lively, Naomi Watts, Orlando Bloom e Miranda Kerr, Peter Sarsgaard e Maggie Gyllenhaal, Madonna, Beyonce, Christina Hendricks, Michelle Williams, Kristen Stewart, Diane Von Furtstenberg e Barry Diller, Calvin Klein acompanhando Donna Karan, Gisele Bündchen, Demi Moore e Campbell, o diretor do Metropolina Museum. Os anfitriões (a editora chefe da Vogue, Anna Wintour, o ator Colin Firth e a designer Stella McCartney) receberam os cumprimentos numa fila de estilo ultrapassado. Os convidados foram alguns dos primeiros afortunados a perambular pelas galerias onde está exposta a obra de McQueen.

Com encerramento em 31 de julho, Beleza Selvagem reúne mais de cem conjuntos e 70 acessórios que cobrem os 16 anos da carreira de McQueen, e vão do majestoso ao macabro. Os modelos mostram desde sua coleção de pós-graduação, na Central Saint Martins, de 1992, baseada em Jack, o Estripador (casaco de seda cor de rosa e vermelha com estampa de espinhos e forrado de cabelos humanos verdadeiros), até sua última coleção, Anjos e Demônios, apresentada após seu suicídio em fevereiro de 2010, e repleta de imagens religiosas (uma mortalha de penas douradas).

Com fundo musical evocativo e galerias às escuras, Beleza Selvagem replica o "prazer ansioso" de vivenciar um dos grandes espetáculos de McQueen na passarela, que o curador do Costume Institute do Museu, Andrew Bolton, compara a "instalações de vanguarda" e à "arte performática".

Entre os vários itens da exposição há filmes de desfiles de McQueen, como É Apenas Um Jogo (exibido no outono de 2004), que mostrava modelos como peças de xadrez em uma batalha do Leste contra o Oeste, e o vestido N.º 13 (outono de 1998), que apresentava um modelo branco coberto de tinta por dois robôs. Bolton compara o gênio torturado de McQueen ao dos poetas e pintores do romantismo, porque o estilista amava a beleza através das lentes da emoção. "Ele levou o passado romântico para o futuro pós-moderno", disse.

A ideia é ilustrada por conjuntos da última coleção, totalmente realizada, de McQueen que desfilou na passarela, Plato"s Atlantis (exibida no outono de 2009), sobre a involução das espécies. Nos maravilhosos vestidos esculpidos de maneira estranha, com estampas semelhantes a águas vivas e nas "botas Tatu" as modelos pareciam transformadas em seres aquáticos primitivos.

McQueen transmitiu o desfile ao vivo pela internet (foi dos primeiros estilistas a usar nova tecnologia com essa finalidade), a fim de tentar envolver o consumidor no processo artístico. Nesse caso, explicou Bolton, a tecnologia permitiu a McQueen expressar o conceito romântico do sublime e sua visão do futuro da moda.

A exposição é organizada em termos temáticos em torno dos "ismos" que informaram a obra de McQueen: naturalismo, nacionalismo, exotismo e historicismo - particularmente o gótico vitoriano e a dicotomia de vida e morte. Uma das peças mais memoráveis é um vestido da coleção Sarabande primavera / verão 2007, coberto de flores frescas, hoje secas e murchas por causa da idade, um efeito inspirado na fruta morta do artista contemporâneo Sam Taylor Woods.

As frases que McQueen postou na coleção são particularmente esclarecedoras; nelas ele parece indicar o seu legado. "É importante olhar para a morte porque ela faz parte da vida", ele disse em 2010. "É uma coisa triste, melancólica e romântica ao mesmo tempo. É o fim de um ciclo - tudo tem um fim. O ciclo da vida é positivo porque dá espaço a coisas novas." Fica a indagação: será que ele tinha planejado havia muito tempo este momento? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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