Mayra Andrade Unecabo verde, Brasil e cuba

A profusão rítmica de Cabo Verde manifesta-se num colorido que tem relações com Brasil e Cuba, todos interligados pelas matrizes africanas. Nascida em Havana, cidadã cabo-verdiana (da Ilha de Santiago, ao sul do arquipélago), a cantora Mayra Andrade promove o encontro dos três países no segundo álbum, Stória... Stória, que tem show de lançamento hoje no Citibank Hall.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2010 | 00h00

O idioma predominante é o dialeto crioulo, que é "a língua pela qual a cultura cabo-verdiana se expressa", apesar de o português ser a oficial. Ela também incluiu no CD uma solitária canção em francês, que é sua terceira língua.

Mayra contou com brasileiros na produção (Alê Siqueira), na mixagem (Flávio Senna) e nos arranjos (Jaques Morelenbaum e Lincoln Olivetti), além de músicos que a acompanharam, como Swami Jr. e André Mehmari. Navega, seu primeiro álbum, de 2006, não lançado no Brasil, tinha "muito menos muita coisa" em relação ao segundo, que ganhou edição nacional pela Sony Music.

Stória... Stória foi gravado em estúdios de Havana, Rio, São Paulo, Salvador e Puteaux (França). Trazendo ritmos como marcha, bandeira e funaná, Mayra deu maior ênfase à percussão no novo álbum. "Tive a oportunidade agora de realizar coisas que não pude fazer no primeiro, por falta de meios, de tempo. E também Alê foi parceiro nessa onda, porque ele conhece bem harmonia, mas adora ritmo, então a gente combinou de dar o espaço ao ritmo que não dei no primeiro disco", diz a cantora.

Não é estranho que aos ouvidos brasileiros boa parte dos ritmos e estilos de Stória... Stória soem familiares. Há incríveis coincidências de ritmos, como em Nha Damáxa, uma bandeira que tem ares de maracatu. E a marcha Turbulensa tem algo da baianidade de Caetano Veloso e do samba-reggae. Outras têm em comum uma certa melancolia de herança afro-lusitana.

A música brasileira esteve sempre presente em sua vida. Ela se lembra, por exemplo, de cantar músicas de Caetano Veloso aos 6 anos de idade. "E também sempre fui muito sensível à cultura cubana, porque eu cresci com essa vontade de conhecer o país onde nasci. Tem essa insularidade e ao mesmo tempo essa africanidade que ao mesmo tempo a gente encontra em Cuba e Cabo Verde. Enfim, tem uma coisa muito magnética na cultura cubana, que é difícil não ser sensível à música, à dança, à expressão cubana."

Mayra nunca morou em Cuba, só nasceu lá "por mero acaso" e ainda bebê foi para Cabo Verde com a família. De qualquer maneira, depois de um certo tempo ela se interessou em estreitar as relações com a terra de Silvio Rodriguez e Celia Cruz. Pisou de volta em terras cubanas três anos atrás, quando já tinha 22 anos.

Desde então voltou várias vezes e passou a fazer contatos com vários músicos de lá, como o genial pianista Roberto Fonseca, Kelvis Ochoa ("um dos principais compositores da nova cena cubana") e Pancho Amato (tocador da guitarra "três"), que participam do CD de Mayra. Roberto toca piano em Lembránsa, com que ela termina o álbum, fazendo a ligação entre a morna e o danzón, "que têm praticamente a mesma clave. "É interessante provocar esse cruzamento nessa música."

Sua identidade musical fica no meio desse caminho, "nessa liberdade de poder provocar encontros, de não ter nenhum complexo em assumir uma estética que possa vir de outra música". Em Cabo Verde chegaram a dizer a ela: "Você canta tão bem, por que não faz a coisa do jeito que deve ser?" "Sou cabo-verdiana, mas defendo com unhas e dentes essa liberdade de fazer a música que eu bem entender."

No show de hoje, ela solta sua voz calorosa, de uma beleza cativante, na companhia de Benoit Medrykowski (violão e cavaco), Gerson Silva (guitarra e violão), Stephane Castry (baixo), Inor Sotolongo (percussão) e Luiz Augusto Cavani (bateria).

MAYRA ANDRADE

Citibank Hall. Av. dos Jamaris, 213, 4003-6464, Moema. Hoje, 22 h. De R$ 60 a R$ 130

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