Mayer Hawthorne, corpo estranho no soul

Entrevista com cantor que abrirá show de Amy Winehouse

, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2010 | 00h00

No dia 10 de janeiro, quando Amy Winehouse finalmente estrear no Brasil, haverá um soulman de óculos e terninho no palco algumas horas antes de ela entrar. Não se enganem pela cara de nerd de Mayer Hawthorne, no entanto: o homem é um fenômeno, e já coleciona fãs de peso com pouco tempo de estrada. Snoop Dogg e Mark Ronson o adoram e propagandeam seu talento por onde quer que andem. Hawthorne falou ao Estado com exclusividade, na quinta-feira.

Você vai tocar no mesmo palco de Janelle e Amy Winehouse. O que pensa das duas?

Já tive a oportunidade de tocar em festivais com ambas. São inacreditavelmente talentosas. Conversamos bastante, trocamos ideias, são duas grandes amigas.

Você é branco e judeu, mas canta black music em falsete. Como começou isso?

Eu cresci em Detroit, o berço da Motown. O som da Motown é uma sombra sobre a cidade, não tem branco, não tem negro. E eu sou orgulhoso desse legado. Mas não é que eu sempre tenha ouvido isso. Como todo jovem americano, passei os anos 80 e 90 ouvindo hip-hop, punk, rock. Queria ser músico de hip-hop, mas quando comecei a fazer meus samples, vi que todo mundo recorria à música negra anterior da Motown. Todo o hip-hop se baseia nisso hoje em dia. Mas, conforme fui evoluindo, vi que não queria passar minha vida sampleando, queria fazer minha própria música original. Então, gravava as coisas que usava em meus samples de hip-hop.

Mas como você descobriu que seus samples eram melhores que seu hip-hop?

Acabei enviando uma das demos que fiz, cantando e tocando, para Chris Manak, do selo Stones Throw. Ele achou bacana, mas não acreditava que tinha sido eu mesmo que tinha gravado. Achava que era algum soul clássico que eu tinha sampleado, mas fiz as gravações em meu quarto, com headphones. Quando eu vi que tinha muita gente que gostava daquilo, eu pensei: por que não? Vou tentar enviar para um especialista. Aí eu gravei para o selo do Chris e eis a história toda.

Você sempre se diz, nas entrevistas, muito influenciado por um trio chamado Holland-Dozier-Holland, que é pouco conhecido no mundo todo, ao menos no Brasil.

Esse grupo tem mais hits do que Beatles, Rolling Stones, Elvis. Eles foram extremamente influentes. Mas eu gosto também de Curtis Mayfield, de Smokey Robinson. Não é que tenham sido minhas grandes influências, eu comecei mesmo ouvindo Ice Cube, Public Enemy, Smashing Pumpkins. E Freddie Mercury. Rapaz, eu adorava Freddie Mercury.

Pode ser daí então que você tenha tirado seu falsete?

O falsete veio de cantar no banheiro mesmo. Eu nunca frequentei escola de canto, nunca treinei a voz. Foi tudo um feliz acaso.

Mas eu li que o seu pai era músico. Então não é tudo coincidência...

Meu pai ainda é um fantástico músico. Toca rock clássico, aquelas coisas. Foi ele quem me apresentou à música dos Beach Boys, The Hollies, me proporcionou a educação musical que me formou.

O seu nome de batismo é Andrew Mayer Cohen. De onde vem o Hawthorne?

Há um jogo de criança típico aqui, nos Estados Unidos, que a gente joga. Eles pegam o nome do garoto e colocam no meio do nome a rua onde ele cresceu. É um joguinho engraçado. Eu morava na Rua Hawthorne, e acabei gostando de me chamarem assim.

Seu último disco, A Strange Arrangement, foi lançado em 2009. Você já está trabalhando em um álbum novo?

Sim. Estou testando minhas novas músicas, provavelmente tocarei muitas delas aí no Brasil. Deverá ser lançado em julho. Eu, Janelle e Amy estamos conversando sobre a viagem, mas não temos planos de tocar juntos. Vai ser nossa primeira vez aí na América do Sul, então pode rolar algo. Quem sabe?

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