Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Maturidade sem paz

Fernanda Torres lança romance sobre o caráter do Rio nos anos 1960 e 1970

Roberta Pennfort/Rio, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2013 | 02h14

Autora de colunas na imprensa, de uma peça (Deus É Química, de 2009) e de um roteiro de filme (Redentor, de 2004), Fernanda Torres nunca se viu como escritora. Tampouco agora, quando lança o romance Fim.

O livro narra as peripécias de cinco homens cariocas, amigos da juventude ao fim, entre cafajestadas, pernas, peitos e bundas, álcool, drogas de todo gênero. Álvaro, Silvio, Ribeiro, Neto e Ciro são legítimos representantes da "geração birita" dos anos 60/70, diz Fernanda.

A morte do pai, aos 80 anos, em 2008, o envelhecimento da mãe, Fernanda Montenegro, que fez 84 anos no mês passado, e o desaparecimento dos amigos levaram a atriz a refletir sobre o avançar da idade. Aos 48 anos, mãe de Joaquim, de 14, e de Antonio, de cinco, ela se enxerga na meia-idade.

"Ando espantada porque, quando eu era mais nova, achava que a gente ia envelhecendo e ia acalmando. Hoje, acho que você vai ficando cada vez mais louco e desesperado. O livro tem isso: a minha descoberta de que não vem a paz, não vem a maturidade."

Quando estreou Deus é Química, você disse que tinha vergonha de dizer que escrevia. E agora?

Agora mais que nunca. Luto muito contra as expectativas. Expectativa não faz bem a ninguém, eu quero a boa surpresa. Odeio estrear peça em teatrão, gosto de teatro pequeno e de ver se aquilo existe. Estou superfeliz, mas não penso: "será que virei escritora?" Pelo contrário, eu acabei esse e não tenho a menor ideia de como se faz outro.

Como na peça, o livro fala muito de droga. Por quê?

Existem épocas e drogas que movem comportamentos. O Rio dos anos 80 foi uma tragédia, foi movido à cocaína. Na época do ecstasy, eu já não tinha 20 anos. Hoje em dia eu também não tomo antidepressivo, só de vez em quando, se a angústia está muito ruim. Desconfio muito. Vejo que tem o seu valor terapêutico, mas o que mais impressiona é quando não se discute mais a pessoa, e sim o remédio. Não acredito em remédio sem psicanálise, porque você tem que fazer um esforço para tentar lidar com os cavalos.

Como nasceu o livro?

Fernando Meirelles me ligou do nada, dizendo que tinha um projeto de uma série sobre a terceira idade que seria atrelado à Companhia das Letras e com vários autores, e que tinha pensado em mim. Aí eu tive uma ideia, e em quatro dias eu fiz o Álvaro (o primeiro dos cinco personagens centrais do livro). O Luiz Schwarcz (editor da Companhia das Letras) falou: acho que você deve arriscar, colocar-se como uma escritora. Eu nunca me vi como alguém que escreve. Adoro escrever, mas eu vejo o João Ubaldo Ribeiro como alguém que escreve. Eu me dei ao direito de fazer esse livro. Acho que devo ter algum talento, já que consegui fazer um romance.

Sentiu-se solitária?

É muito solitário. Eu tenho essa herança de atriz de coisas coletivas. Tinha muito pudor de dizer: "Vou escrever um romance." Achava inútil, pensava que ninguém precisava de um livro meu. E não precisa mesmo.

Qual o papel da cidade do Rio de Janeiro na narrativa?

É um livro sobre o caráter do Rio. A personalidade da cidade, como a natureza age na gente, o hedonismo, a decadência, mas com o sentido cosmopolita. Eu queria fazer um livro sobre pessoas que não tivessem nenhuma importância, nenhuma relação importante com o trabalho, com o País, com a história. A classe média média, que é o perfil do carioca. Um amigo meu pernambucano, quando foi trabalhar em São Paulo e lhe perguntavam "de onde você é?" e ele dizia "Garanhuns", as pessoas respondiam: "Não, quero saber de qual a firma!" O Rio não tem corporação. O Eike (Batista) faliu. O que importa no Rio é viver. A vida no seu mais profundo lugar, que são as relações humanas, a solidão, o desejo. O carioca tem sempre pena de morrer.

Por que homens tão tremendamente cafajestes?

Eu nem chego a achar meus velhos cafajestes. Eles são trágicos. Eu não julgo a vida por cafajestagem, cada um faz o que consegue. O traço comum entre eles é ser homem e ser da geração birita. Nenhum deles consegue deixar de ser quem é, mesmo perdendo as mulheres, a saúde. Mas não é um livro sobre a velhice, é sobre a vida deles. O livro se passa na época em que meus pais tinham a minha idade, talvez fossem mais novos. Toda a geração dos meus pais está morrendo. Jorge Dória foi, o Millôr, todo mundo que eu vi na coxia dos teatros. E amigos meus. Já estou numa idade em que você pode morrer, estou na meia-idade.

O que existe da atriz no processo da escrita?

A prática do imaginário. Todo ator lida com o imaginário. Você projeta uma imagem na cabeça e fala aquilo, você fala o que está por trás do texto. Um ator com grande imaginação é melhor do que o outro. A escrita tem a ver com o diálogo interior, que o ator exercita muito.

Você sempre escreveu?

Na escola fazia redações, mas não escrevia para mim. Foi com a convivência com o Gerald Thomas em Nova York, de 1992 a 1996, nos primórdios do computador, que passei a escrever. Achei interessante ele guardar as ideias no computador. Nova York é uma cidade que te inspira muito a criar.

Tem dificuldade para fazer suas colunas?

Agora está difícil. Terminei o livro e estou totalmente vazia, sem querer dar opinião sobre nada.

Mas você deu, se disse favorável às biografias não autorizadas...

Eu achei que eles (o Procure Saber) conquistaram coisas importantes como grupo na questão do Ecad. Quando foram para as biografias, se colocaram de forma errada. Não perceberam o tamanho que aquilo tinha como posicionamento. Colocaram mal quando atacaram a biografia, o livro. Se tivessem se colocado "somos a favor da liberdade irrestrita de expressão, mas acho que nossa legislação é falha quanto às regras de privacidade"... O que eles falam é relevante; quais são as leis no Brasil que protegem a privacidade? Acho que se recuou imensamente, porque não se discutiu nenhuma questão da privacidade, e se avançou imensamente, porque acho que as biografias devem ser liberadas. Mas eu posso estar errada, talvez eles tivessem total consciência.

Como é ser famosa na cidade dos paparazzi e ler notícias como "Fernanda Torres passeia com o filho no calçadão"?

Acho errado sair foto de criança, é perigoso. Eu relaxei porque, caso contrário, não vou levar meu filho na rua. Mas tem que pedir autorização. Minha, que tirem. Mas uma vez contratei um clipping porque estava lançando uma peça de teatro, e aí chegou tudo o que estava saindo sobre mim. Não tinha nada grave, mas com uma semana eu parei. Se falam mal de mim, que falem pelas costas! E bem também! Outro dia, eu fui ao aniversário de 84 anos da minha mãe. Tomei uma taça de vinho e comi. Estava inteira, peguei o carro e... Lei Seca. Quando eu soprei (o bafômetro) e estava dentro do limite, me deu uma alegria! Iria sair "Fernanda Torres é pega na Lei Seca". Mas é isso mesmo, pessoas públicas servem de exemplo.

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