Maturidade de intérprete

Sem exageros, Fabiana Cozza quase perdeu seu patrimônio este ano. Em determinado mês, tinha de escolher entre pagar suas prestações ou bancar a mixagem de seu disco. No outro, ou quitava parcelas de seu carro ou acertava as contas com seu diretor e produtor musical Paulão 7 Cordas. Percorrido todo o caminho das pedras - trajeto comum para artistas independentes -, ela acaba de lançar Fabiana Cozza, terceiro álbum de sua carreira. O disco, bancado inteiramente do bolso da cantora, tem estreia prevista em shows de 25 a 27 deste mês, no Sesc Vila Mariana, e no dia 7 de dezembro, no Solar de Botafogo, no Rio.

LUCAS NOBILE, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2011 | 03h09

Com 15 anos de carreira, depois dos elogiados O Samba É Meu Dom e Quando O Céu Clarear, Fabiana chegou a ter o projeto de seu novo disco aprovado na Lei Rouanet, mas não conseguiu captar patrocínios. "É complicado, não só para mim. Estamos órfãos. Costumo dizer que nós, artistas, voltamos ao navio negreiro nesta questão. Mas as coisas não podem deixar de acontecer, bora tocar pra frente", comenta a cantora sobre a falta de incentivos e de ter de financiar o álbum com recursos próprios.

Seu novo trabalho foi concebido ao longo de 2010 e gravado entre março e maio deste ano. Com o disco finalizado, houve uma reunião com Paulão 7 Cordas, Marcelino Freire (que assina a produção artística) e outros envolvidos para decidir como seria nomeado o novo rebento musical da artista. Após diversas conjecturas e sugestões, pela primeira vez em sua carreira, ela decidiu que era a hora de batizar o disco de Fabiana Cozza. "O Marcelino sempre me ajudou a amarrar os conceitos. Este é o primeiro disco que assino com meu nome. Eu me senti mais madura pra assinar Fabiana Cozza, eu me sinto mais intérprete. Sou eu aqui (neste trabalho), com os compositores que eu quero, com as canções nas quais eu acredito. Não se trata de nenhuma pretensão para além do tamanho das minhas pernas. Eu quero me melhorar como intérprete, entender melhor a leitura do poema", explica Fabiana.

A cantora, que quase chegou a se formar na Universidade Livre de Música (ULM), faz aulas atualmente com seu sexto professor de canto. Mas foi na noite mesmo que ela ganhou a "verdade", a "sujeira" da autenticidade, o molho e o tempero de interpretação com a nata do choro e do samba de São Paulo, mais especificamente no Ó do Borogodó, com Zé Barbeiro, Luizinho 7 Cordas, Alexandre Penezzi, Alessandro Ribeiro, Roberta Valente, entre tantos outros, e também no Rio de Janeiro. No sentido de "melhorar como intérprete", ela tem como maiores referências Maria Bethânia e Nana Caymmi, entre as vivas, e Elis Regina e Elizeth Cardoso, entre as que já partiram. Com seu passado também percorrido na dança e no teatro, Fabiana tem dado mais atenção a unificar todos esses atributos e possibilidades, não se limitando a ser apenas uma cantora de um gênero só.

Tal pluralidade e o afã de Fabiana Cozza em se tornar mais completa também se apresentam evidentes no que diz respeito à escolha do repertório e aos arranjos de seu novo disco. Isso já transparece também na direção e na produção musical do álbum, que ganhou um molho mais carioca graças às mãos do competente Paulão 7 Cordas, há tempos dividindo o pódio do melhor do País com o não menos craque Rildo Hora. Há quem diga que Fabiana é muito mais uma cantora de palco do que de estúdio, mas ela nunca deixou a desejar em seus discos e, definitivamente mais madura, dá um banho de interpretação em seu terceiro álbum.

Em relação aos temas, obviamente o samba tradicional não fica de fora. Compositores pelos quais ela tem extrema afeição aparecem novamente em um CD dela. Caso, por exemplo, de Nei Lopes (no clássico Sandália Amarela, parceria com Wilson Moreira, e na dolente e rasgada ode à dor de cotovelo Lupiciniana, com Wilson das Neves). Reaparecem também Roque Ferreira (em Candeeiro de Deus), Sombrinha (em Sabe Deus, com Marquinho PQD e Carlinhos Vergueiro, em Festa do Zé, apenas com Carlinhos, e na melodiosa Eternamente Sempre, só com PQD) e Paulo César Pinheiro, que escreve texto assertivo e emotivo no encarte do disco (em Serenata de São Lázaro, com arranjo sofisticado e intimista do parceiro e pianista Gilson Peranzzetta).

Quem também não podia ficar de fora da festa é Oswaldo dos Santos, pai de Fabiana, que volta a um disco da filha, novamente com um samba da Camisa Verde e Branco, desta vez com o enredo de 1977 da escola, o lindo Narainã (Alvorada dos Pássaros).

Entre as regravações presentes no álbum, além de Sandália Amarela, estão Lá Fora (assinada por ninguém menos que Elton Medeiros e Délcio Carvalho) e São Jorge, de Kiko Dinucci, registrada no disco Padê, dele com Juçara Marçal. Da safra de compositores mais jovens, arrojados e contemporâneos de Fabiana (que completa 36 anos em janeiro), Kiko também assina Santa Bamba, ao lado de Fabiano Ramos Torres.

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