Maturidade da filha de Marcello e Deneuve

Em Cannes, Chiara Mastroianni vive protagonista no filme de Claire Denis

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2013 | 02h09

CANNES - Há um momento no filme Les Salauds, de Claire Denis, em que a personagem de Chiara Mastroianni explica a Vincent Lindon por que continua com o pai de seu filho. O sujeito é abominável, abusou de Chiara e abusa agora da sobrinha de Lindon, mas ela não sabe. Chiara diz que o homem, de alguma forma, lhe deu confiança.

O repórter aproveita e pergunta se a própria Chiara se sente mais confiante, na vida. Quando começou, era apenas a filha de Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve. Com o tempo, tornou-se uma verdadeira atriz, e Les Salauds fornece outra prova disso.

Na terça, dia 28, ela completa 41 anos. "Confiante, eu? Estou é mais velha. Já não consigo ler sem óculos. Para alguma coisa a velhice tem de servir."

Chiara faz uma mãe em Les Salauds. No final, tem uma atitude radical. O fato de ser ela própria mãe lhe deu ferramentas para a compreensão da cena e da personagem? "Claire (Denis) não dá muita orientação para os atores e, principalmente, evita a psicologização. Ela é muito racional. Tudo tem de vir na espontaneidade do gesto ou na progressão dramática."

Chiara conta que filmar com Claire era um desejo antigo. "Tinha 19 anos quando vi o primeiro filme dela, Chocolat, que tinha uma luz tão especial. Ainda não pensava em fazer cinema, mas pensei que, se fizesse, gostaria de ser filmada sob aquela luz. E ela é muito estimulante. Les Salauds é uma novidade para Claire, que trabalha em seu ritmo, lentamente. O filme todo foi feito em menos de um ano. Nem Claire teve muito tempo de pensar nele."

A diva Catherine Deneuve não veio prestigiar a exibição da cópia restaurada de Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Demy, em Cannes Classics - filmava em Paris ,com André Techiné -, mas veio para o filme da filha, em Un Certain Regard. Chiara não tem problema nenhum em falar do pai, da mãe. "Ele sempre encarou a interpretação como diversão e, quando comecei a fazer filmes, me disse: 'Se você se aborrecer, pare.' A angústia de atuar é desculpa dos maus atores." A mãe sempre teve mais confiança em Chiara do que ela própria. "Me dizia para não ser ansiosa. Que as coisas iam acontecer. E aconteceram."

Ambas, a atriz e a diretora, possuem o mesmo nome, em diferentes línguas - Clara. "Não sou uma pessoa complicada", diz Chiara. "Também não sou do tipo que recebe 50 propostas de filmes por mês. Termino tendo tempo para mim e meus filhos."

Quando será que aconteceu o "clic" e ela se deu conta de que era mesmo uma atriz? "Acho que tem a ver com Christophe (Honoré). Meu encontro com ele foi muito importante."

Mas não mais do que o encontro com Vincent Lindon. Estão num relacionamento sério há bastante tempo. Lindon é 13 anos mais velho que ela. "Não sinto a diferença de idade. Ou talvez precise dessa solidez que ele me passa."

Les Salauds nasceu por causa de Lindon. Ele conversou com Claire Denis, fez a aproximação com o produtor, e Vincent Maraval propôs essa aventura louca para a diretora. Para tranquilizar Claire, Maraval dizia que era só um filme e que poderiam parar, se ela não encontrasse o bom tema, ou a boa história.

Em determinado momento, o repórter decide relatar para Chiara o que a atriz Marion Cotillard lhe disse durante uma entrevista: teria interpretado de forma diferente a mãe do longa Blood Ties, de Guillaume Canet (seu marido), se não fosse mãe. "Cada uma tem seu método. Eu ficaria paralisada se pensasse em meus próprios filhos na hora de filmar uma cena como a final de Les Salauds."

E o sexo? "Estava fazendo as cenas de sexo com Vincent. Apesar dos técnicos, foi uma coisa íntima e relaxada. Foi Vincent quem fez a parte difícil, encarnando as fantasias de uma mulher (a diretora) em relação ao casal na cama."

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