Maturidade a serviço do teatro

Cia. Casa das Fases exporta método de trabalho com a terceira idade

FABRÍCIO ADDÊO RAMOS, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h07

O reconhecimento internacional do trabalho com atores da terceira idade leva uma companhia de Londrina, no Paraná, a realizar intercâmbio duradouro com organização do Reino Unido.

Casa das Fases é um núcleo de trabalho da Companhia de Theatro Fase 3 de Londrina. Completando 25 anos agora em novembro, a trupe comemora a maturidade exportando suas metodologias de trabalho. Com destaque para o projeto iniciado em agosto no Brasil e setembro no Reino Unido que será concluído com a montagem de A Tempestade, de Willian Shakespeare, no Brasil e no Reino Unido em 2013.

O intercâmbio inclui a produção de um cabaré virtual realizado simultaneamente nas duas companhias e transmitido pela internet. O projeto conta com a parceria de um dos grupos de teatro mais tradicionais do mundo, como relata o diretor da Casa das Fases, João Henrique Bernardi. "O diretor da Entelechy Arts, David Slater, realizou algumas reuniões com representantes da Royal Shakespeare Company e nosso projeto foi aceito."

Slater conta com o apoio do Arts Council na Inglaterra e também com o interesse do governo britânico e de fundações e parceiros da companhia para execução do projeto. Os brasileiros vão buscar apoio em leis de incentivo e na iniciativa privada. O diretor da Casa das Fases também aguarda uma posição do Ministério da Cultura. "O que ficou acordado no governo anterior é que seríamos apoiados por ambos os países, mas até agora, da parte brasileira, apenas um constrangedor silêncio."

O grupo não espera a resposta passivamente. Neste mês, a Casa das Fases foi convidada a apresentar alguns de seus trabalhos em três cidades da Suécia: uma performance de rua chamada Black Box, a peça Equal e oficinas de suas metodologias.

Todo o processo vem sendo acompanhado por uma equipe de documentaristas reunidos pela produtora Colibri Global, de Adriana Rouanet, outra parceira do projeto, que também colabora com traduções e produção nos dois países. Formam o grupo os produtores João Maria Figueira e Claudio Khans da Tatu Filmes, de São Paulo, além do diretor Luciano Vidigal e do diretor de fotografia Arthur Castro, ambos do grupo teatral Nós do Morro, da Comunidade do Vidigal, do Rio de Janeiro.

Para a escolha da peça A Tempestade, João Henrique se inspirou na obra do diretor de teatro italiano Eugenio Barba. Ele visualizou as duas companhias como ilhas flutuantes, que finalmente se encontram. "Veio em um momento de nossa inspiração e reflexão sobre a condição do personagem principal, o velho Próspero em sua ilha. Encontramos a identificação e o desejo de trazer esse grande homem de volta."

Também entendendo que A Tempestade é uma obra sobre encontros, Slater possui uma visão que confirma essa imagem. "A peça ocorre na ilha. A locação é distante e incerta. Isso oferece um espaço para o artista de terceira idade de ambas as companhias projetar suas imaginações no processo de sonhar uma terra mágica compartilhada", afirma. A peça cumprirá turnê em ambos os países com artistas das duas companhias.

"Acredito que o trabalho da Casa das Fases é bastante singular. Não temos nada parecido no Reino Unido nem nos Estados Unidos, onde recentemente realizei estudos", comenta Slater, premiado com a bolsa Winston Churchill Travelling para aprender sobre programas que trabalham com artistas de terceira idade neste país.

Ele encontrou metodologias originais, que influenciam suas criações na Entelechy Arts, inclusive em grande centros de arte como o londrino Southbank Centre. "O trabalho desafia estereótipos sobre como são vistos os mais velhos. Explora temas centrais desse período da vida: desejo, perda, migração, entre outros. Usam o teatro como um caminho para reimaginar como o cidadão de terceira idade pode se desenvolver. Eles trabalham com o fato de que uma pessoa nesta fase da vida ainda está se desenvolvendo em outra possibilidade dela mesma", conclui Slater

"Nossa preocupação não é social e sim artística. O trabalho com o ator é o mesmo para qualquer faixa etária. Tudo é planejado e adaptado às condições, o que não muda é a questão da disciplina e do comprometimento com o personagem. Acreditamos e provamos que o ator, quanto mais velho, melhor ele fica", observa João Henrique.

A Casa das Fases possui um blog: casadasfases.wordpress.com. O contato pode ser feito também pelo e-mail: casadasfases@gmail.com.

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