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Matilda

É só falar em Venezuela que logo me vem à cabeça o calipso do Harry Belafonte

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

02 de março de 2019 | 02h00

Sempre que ouço a palavra Venezuela o que primeiro me vem à cabeça é aquele calipso do Harry Belafonte, Matilda. Não é a única música popular protagonizada por uma Matilda que conheço (tem a australiana Waltzing Matilda, ainda mais antiga, chatinha como ela só), mas é a única ambientada na Venezuela que minha memória guardou e me animo a cantarolar. Originalmente composta nos anos 1930 por um tal de Norman Span, pioneiro do calipso, só veio a estourar mesmo quando Belafonte a gravou e fez seu refrão dar a volta ao mundo, em meados da década de 1950:

“Matilda! Matilda! Matilda, she took me money and run Venezuela”. 

Levei anos convicto de que Matilda fugira da Venezuela com todas as economias (500 dólares) do amante, que os guardara no colchão, visando à compra de uma casa. Meu maior amigo na adolescência insistia que era o contrário, que Matilda pegara a grana do sujeito e se picara para a Venezuela. Nessa bizantina controvérsia o torrão natal de Simón Bolívar saía mal de qualquer ângulo: ou era um viveiro de Marnies ou uma rota de fuga segura para pilantras, igual ao México e ao Brasil caricaturados em diversas películas gringas. 

Matilda talvez nem tivesse nascido ainda quando em Caracas – e não apenas em Caracas – já corria a lenda de que, por ser a Venezuela um grande país (onde cabiam a França, a Alemanha, e ainda sobrava espaço para uma Jamaica), rico em petróleo, todos os seus 6 milhões de habitantes poderiam ter um padrão de vida quase igual ao dos moradores da Park Avenue em Nova York. Embora sua população seja hoje cinco vezes maior, até pouco tempo atrás ainda era forte a crença de que, se bem distribuída a riqueza nacional, o padrão de vida dos venezuelanos poderia ser quase igual ao do pessoal que reside, digamos, no Bronx. Mas como fazer uma distribuição justa da riqueza venezuelana com tantos empresários gananciosos, tantos milicos golpistas e tantos candidatos a ditadores? 

Matilda, diga-se a bem da verdade, foi quem menos furtou na Venezuela. Afanou apenas o amante. Em 500 dólares. 

Penso no “Tirano dos Andes”. Ele nasceu, reinou, roubou e mandou matar não no Chile, nem na Bolívia, nem na Argentina, mas naquela cidade venezuelana em que Cornel Wilde filmou Maracaibo, e que só tem de bonito o nome. Juan Vicente Gómez, vulgo “Tirano dos Andes”, alçado ao poder pelos barões do ouro negro, governou a Venezuela de 1908 a 1936 e fez todo tipo de concessão aos seus principais avalistas, locais e norte-americanos, abriu os campos de petróleo às “nações amigas”. O ex-comunista Rómulo Betancourt bem que armou um farsesco assalto ao poder, mas não conseguiu derrubar o sátrapa andino. 

Destronar o milico Isaías Medina Angarita até que foi fácil. Ajudado pelo capitão Marcos Pérez Jiménez, Betancourt, já líder da Acción Democrática, deu o golpe em 1945, coagulando as reformas democráticas de Medina e jugulando as primeiras lei de proteção ao petróleo nacional. Três anos depois, os antigos aliados militares, insatisfeitos com suas concessões (queriam mais), puxaram-lhe o tapete. 

E por quase uma década os venezuelanos padeceram a ditadura do então general Pérez Jiménez, que, não obstante sanguinário e lalau de cofres públicos, acabou agraciado pelo governo Eisenhower com a Ordem do Mérito. Quem o sucedeu? O recalcitrante Betancourt. 

Não pretendo aborrecê-los com o que ele e, mais recentemente, Carlos Andrés Pérez e Rafael Caldera Rodríguez fizeram com os ideais democráticos e o erário do país. Em 2002 apareceu Pedro Carmona, líder empresarial que assumiu a presidência por dois dias, um pilantra tão mal-intencionado quanto os putschistas do passado. Anacrônica vivandeira, dessas que ainda preferem a quartelada ao impeachment, apelou para o golpe militar, dissolveu o Congresso e a Suprema Corte, congelou a Constituição, mandou a polícia prender todos os ministros de Estado, perseguir os correligionários do presidente deposto e engaiolar dezenas de jornalistas. 

Mais que depressa, o governo norte-americano e o FMI reconheceram a nova administração venezuelana. Explica-se: a Venezuela é o único país da Opep do hemisfério ocidental que exportava na época 1.3 milhões de barris de óleo cru e 250 mil barris de produtos refinados por dia para os EUA. Esse volume caiu para menos da metade nos últimos anos, mas as maiores reservas do lado de cá do mundo continuam lá. 

Fantoche incompetente é sempre problemático. Carmona marcou as eleições para dali a um ano, e desse fatal erro estratégico brotou Hugo Chávez, com as consequências de sobejo conhecidas e nem sempre honestamente interpretadas. 

Estaria Matilda ainda viva quando houve o golpe de 2002?, perguntei-me na época. 

Mesmo que ainda vivesse na Venezuela, ela não teria sabido que, apesar dos desmentidos do governo Bush-Dick Cheney, empresários políticos e militares haviam sido vistos entrando e saindo da embaixada dos EUA em Caracas, semanas antes do golpe, conforme registrou o correspondente do Washington Post. Pouca gente soube desse beija-mão. Ainda mais sigilosas foram as visitas de vários políticos da oposição venezuelana a Washington, alguns deles às expensas do International Republican Institute, braço do National Endowment for Democracy, que há tempos é usado para acobertar operações da CIA no exterior – com ou sem a etiqueta “ajuda humanitária”. 

Eu, modestamente, só fui saber dessas coisas lendo William Blum, autor de dois livros Killing Hope: US Military and CIA Interventions Since World War II e Rogue’s State: A Guide to the World’s Only Superpower. Recomendo-os ao vice Mourão, o único do atual governo chegado a uma leitura.

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