Matheus volta à cena de origem

Matheus Nachtergaele está de volta a São Paulo para rever um velho amigo que, na metade dos anos 90, ajudou-o a abrir as vias de acesso ao primeiro time dos jovens atores brasileiros. O velho, no caso, não é um um mero adjetivo para denotar familiaridade - o companheiro com quem ele vai conviver de amanhã a domingo é ninguém menos que Jó, o personagem bíblico cuja fé um dia Deus resolveu pôr à prova. O Livro de Jó, produção do cultuado grupo Teatro da Vertigem, recebe de volta para cinco apresentações (com ingressos já esgotados) o filho pródigo que, após revelar-se na companhia, partiu para se firmar como um dos nomes mais cobiçados das minisséries de tevê e do cinema nacional. Na sessão de amanhã e nas duas de sábado e domingo, Matheus retoma o personagem Jó, que nos últimos anos estava nas mãos do ator Roberto Audio. O Matheus que volta agora em nada lembra aquele que partiu há pouco mais de cinco anos. Não só pelo currículo, devidamente anabolizado com suas performances nos filmes Central do Brasil e Cidade de Deus e nas minisséries Hilda Furacão e O Auto da Compadecida, mas também, como assinala o ator, "pelo tempo corrido e pelos cigarros fumados". "É emocionante e ao mesmo tempo assustador voltar a fazer este personagem", disse o ator na terça-feira, nos intervalos de seu ensaio individual. "Eu sou um homem diferente e o espetáculo é praticamente igual. Deste encontro vai nascer um novo Jó". Aos 35 anos, Matheus Nachtergaele traçou uma carreira atípica - tornou-se um ator popular sem jamais ter feito uma novela. "Não tenho nada contra elas, até aceitaria fazer, caso um autor interessante me oferecesse um personagem que valesse a pena ficar quase um ano à disposição dele", diz. "Minha prevenção em relação às novelas está ligada ao tempo que se gasta ali". Mesmo longe dos folhetins da Globo, o ator jamais poderia se queixar de falta de visibilidade. Ele integrou o elenco de alguns dos filmes nacionais mais vistos dos últimos anos e tornou-se um prodígio com sua composição para o João Grilo de O Auto da Compadecida, a minissérie da Globo que também ganhou uma versão para o cinema. E é no cinema que o público voltará a encontrar o ator este ano, vivendo Dunga, "uma bichinha faxineira de um hotel de quinta categoria" no longa Amarelo Manga, de Cláudio Assis, o filme mais premiado no último Festival de Brasília. "O cinema nacional está muito vivo, é a atividade mais dinâmica do momento", diz ele. Exemplos disso é o próprio Matheus quem fornece. Ele fará nas próximas semanas uma participação no filme Nina, dirigido por Heitor Dhalia e, no ano que vem, muda de lugar no set e pula para trás das câmeras, de onde irá dirigir A Festa da Menina Morta, cujo roteiro é também de sua autoria. Neste filme, uma espécie de retrato da violência familiar e religiosa, o nome de Matheus surgirá nos créditos também como protagonista, além da direção e roteiro. "Eu faço tudo isso com o objetivo de dar uma coerência à minha carreira, o que nem sempre é fácil", diz. O próximo projeto de Matheus é trazer para São Paulo a montagem de Woyzeck, dirigida por Cibele Forjaz, que cumpriu temporada carioca em 2002. Como ocorre agora em O Livro de Jó, em Woyzeck o ator voltou a um personagem que havia feito no início de carreira. No caso específico de Jó, este retorno cercou-se de uma certa disciplina. Na segunda-feira, em seu primeiro ensaio com o elenco, ele garante ter recuperado 90% do texto. Terça-feira e ontem ele atravessou estudando as passagens das quais não se lembrava e assistindo às gravações do espetáculo em VHSSérgio Castro-Arquivo/AE-5-12-98 Matheus Nachtergaele (acima) e na minissérie ?O Auto da Compadecida?, ao lado de Selton Mello: um talento que se firmou longe das novelas e perto, muito perto, do cinema . E finalmente hoje repassará a íntegra da peça com o elenco e o diretor da companhia, Antonio Araújo. No entanto, quem o viu na platéia de O Livro de Jó, na sessão do último domingo, garante que Matheus faz tudo isso por perfeccionismo: em voz baixa, e às vezes de olhos fechados, ele conseguia repetir, palavra por palavra, o texto que jorrava da boca dos atores. Paciência de Jó nas Filas Conseguir ingressos para assistir aos dois espetáculos do Teatro da Vertigem em cartaz na cidade tem exigido do público paciência de Jó. As filas para as sessões gratuitas de Apocalipse 1,11 começavam a se formar na frente do Presídio do Hipódromo em média sete horas antes do início do espetáculo. Nas últimas semanas, os moradores da região do Brás passavam o dia nas filas para conseguir os ingressos gratuitos e depois vendê-los por R$ 30 para o público que chegava pouco antes das sessões. Isso obrigou a companhia a encerrar a temporada gratuita e estabelecer ingressos ao preço único de R$ 12, vendidos em um estande montado no Hospital Umberto I. Agora continua impossível ver Apocalipse com menos de uma semana de antecedência. Em relação ao O Livro de Jó, as notícias são ainda mais desanimadoras para o público: as vendas de ingresso foram suspensas, pois todas as sessões estão esgotadas até o final da temporada, no dia 26. O Teatro da Vertigem espera renovar suas parcerias com o hospital e o presídio para prosseguir com as duas montagens.

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