Matheus Rocha Pitta e o fracasso do futuro

"Empresa compra por R$ 1 entulho da demolição de prédio da UFRJ." Ao ler a notícia, sete meses atrás, Matheus Rocha Pitta se sensibilizou. Dez anos antes, o artista plástico mineiro, recém-chegado ao Rio para estudar História, frequentara e fotografara o imponente edifício modernista - construído nos anos 50 para ser anexo do hospital universitário, inaugurado durante a ditadura militar, mas nunca utilizado, tornando-se um monumento ao desperdício e à obsolescência. Considerava o vazio daquele espaço algo libertário, do qual usufruíam tanto crianças das favelas vizinhas quanto universitários.

ROBERTA PENNAFORT / RIO , O Estado de S.Paulo

22 de março de 2012 | 03h08

Ele tinha acabado de ser convidado para expor no Paço Imperial, onde, em 2001, bem antes do reconhecimento internacional, estivera com sua primeira individual. Tão logo leu a matéria de jornal, foi ver de perto os escombros daquela "ruína natimorta", como enxerga o crítico Sergio Bruno Martins.

Ao se deparar com as cem mil toneladas de concreto prestes a serem moídas para reciclagem pela empresa Britex, sentiu-se melancólico, e pediu para que lhe cedessem uma parte, antes de tudo ser devolvido à construção civil para futuras edificações. Acabou pagando R$ 400 por três caçambas de rachão e brita, o resto do concreto, dispostos na exposição Dois Reais, a ser aberta hoje, às 18h30.

Abrigada pela Sala do Terreiro da histórica construção colonial, com curadoria de Martins, a mostra tira o caráter mercadológico do material aparentemente já desvalorizado, dado o real simbólico pago pela Britex. Não há fetichismo, moralismo nem didatismo. Há perguntas: qual o valor do passado? Como lidar com o fracasso do futuro?

O prédio ainda é reconhecível em pedaços maiores de sua parte mais alta, revestidos de pastilhas beges - basta observar as fotos que o artista "emparedou" em lajes, assim como outros recortes de jornal e anúncios imobiliários. Partes menores, embaladas, formam esculturas.

Um vídeo mostra a preparação de "pré-exposições" na mesma sala, desnaturalizando a atual. É o que restará em maio, quando da desmontagem e recolhimento do entulho. "Tive bastante cuidado para não fazer o mesmo que a empresa faz. Estou sustentando a contradição que existe na ação deles, e deixando todo o processo de negociação aparente", diz Rocha Pitta.

O trabalho dá continuidade a uma discussão já proposta num trabalho feito num subúrbio londrino e trazido por ele à última Bienal: fotografias de uma fábrica desativada que guardava latas fechadas de alimentos há muito expirados.

"As latas nunca entraram em circulação, assim como o prédio demolido. Falhas impediram que chegassem a ser usados, e Matheus está chamando a atenção para outro tipo de circulação", aponta o curador.

A discussão sobre valor e memória vai além do Paço, erguido no século 18, usado no 19 como casa de despachos de D. João VI e no 20 aberto como centro cultural. Do outro lado do muro realiza-se semanalmente a famosa feira de antiguidades da Praça 15, com suas quinquilharias e preciosidades; mais adiante, está o viaduto da Perimetral, erguido há 40 anos e que poderá ser destruído em breve pela prefeitura, para revitalização da degradada região portuária.

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