Mater dolorosa

Colm Tóibín fala sobre seu livro O Testamento de Maria, obra polêmica que devolve humanidade à mãe de Jesus

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h11

Apresentar a Virgem Maria não como a mãe de Deus, mas uma mulher vulnerável, certamente é um passaporte para o purgatório num país como a Irlanda. Mas foi isso o que fez o escritor irlandês Colm Tóibín em O Testamento de Maria, lançado agora pela Companhia das Letras, justamente quando a peça ainda faz barulho na Broadway. A adaptação para o teatro, feita pelo próprio autor e estrelada por Fiona Shaw (dos filmes de Harry Potter), provocou protestos de católicos na rua 48, em Nova York, na noite de estreia, em abril, no Walter Kerr Theater. A polêmica só não foi maior porque Tóibín, em sua pequena novela, que rendeu um monólogo de 90 minutos, usa uma linguagem elegante, respeitosa, quase arcaica, para contar a história de Maria vivendo no exílio, em Éfeso, 20 anos depois da crucificação de Cristo. Detalhe: ela não acredita que seu filho Jesus seja o Messias.

Esse, aliás, é o motivo da resistência de Maria em dar sua versão pessoal da morte do filho para dois apóstolos, empenhados em escrever o Novo Testamento. Protegida por João, que arranja para ela uma casa como refúgio, Maria, viúva e precocemente envelhecida, recusa-se a aceitar a narrativa dos discípulos, descritos pela Virgem como "um bando de desajustados" tentando criar um mito. Em Éfeso, Maria é apenas uma mulher solitária, que emerge no livro como uma personagem de estatura moral comparável ao monumento erigido pela Igreja após o primeiro concílio de Éfeso, em 431. Nele, a Virgem Maria foi declarada mãe de Deus (Theotokos), e não apenas da natureza humana de Cristo.

Menos dogmático, Colm Tóibín, conhecido do leitor brasileiro por livros como O Mestre e Mães e Filhos, mostra Maria como uma mulher comum, que não fica aos pés da cruz como a retratam os pintores ocidentais. A versão de Toíbín, que concedeu uma entrevista, por telefone, ao Estado, é que Maria fugiu, com medo de ser a próxima vítima, acossada que estava por dois fariseus. Lá pelo fim do livro, depois de muito duvidar sobre a natureza divina do filho, ela, num momento de clarividência diante da morte, só lamenta não ter tido a chance de evitar seu martírio, como lamentaria qualquer mãe.

Devolver a humanidade a Maria, como Kazantzakis fez com Jesus em A Última Tentação de Cristo, não chega, portanto, a constituir um escândalo, embora alguns católicos possam ficar incomodados com a recusa de Maria em pronunciar o nome do filho revolucionário - que não reconhece como a criança que criou. Descrente, Maria não se sente à vontade sequer para entrar na sinagoga. Prefere, em Éfeso, retomar a antiga crença na deusa pagã Ártemis, a casta caçadora desapegada da figura masculina.

Apesar disso, Toíbín garante que não desejou criar um mito feminista nem provocar um novo debate sobre o lugar que Maria ocupa na teologia cristã. Ele escreve como um humanista. Impressionado com uma tela de Tintoretto que viu na Scuola Grande de San Rocco em Veneza durante as férias, A Crucificação, ele resolveu escrever sobre o maior ícone feminino da cristandade. "Como irlandês criado entre imagens da Virgem Maria, parecia que já havia visto tudo o que se refere à iconografia cristã, mas essa gigantesca tela impressiona e ainda sugere que Cristo não sofreu passivamente na cruz."

Toíbín também admite que, a exemplo de Tintoretto, queria criar algo grandioso - não operístico, como o pintor veneziano, mas realmente trágico como as clássicas peças gregas. "Tinha Electra na cabeça e João como o condutor dessa história, não como uma escolha arbitrária", diz. "João foi o único evangelista a entender, de fato, o quão poderosa era a imagem da Virgem, como um erudito que conhecia profundamente o teatro grego." Com efeito, o leitor tem à frente uma figura como Medeia, diferente da Virgem dócil e submissa consagrada pela iconografia e a literatura ocidentais. Em alguns momentos, ela parece mesmo duvidar do poder das palavras do filho, como na passagem em que relembra a transformação da água em vinho durante as bodas de Canaã. Para Maria, ela não pediu o milagre e acredita que tudo não passou um de um truque esperto num casamento da Galileia.

A exemplo de Mães e Filhos, em que segredos familiares podem desestabilizar o clã, em O Testamento de Maria, Tóibin faz a Virgem descer do céu e encarar um mundo medíocre, onde reina a paranoia e o medo. Essa história, contada do ponto de vista de uma mãe eclipsada pelo filho, diz o autor, não deve, entretanto, ser lida como um ataque insolente. "Esperava que a Igreja irlandesa reagisse ao livro, mas os católicos de meu país simplesmente o ignoraram", revela Toíbín, agora empenhado em contar a vida de uma outra mulher - desta vez mortal, a poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979), que viveu no Brasil nos anos 1950 ao lado da companheira, a arquiteta Lota de Macedo Soares.

Na prosa rapsódica de Toíbín, como observou um crítico americano, todos os seus heróis e heroínas seguem uma luta similar entre duas natureza para alcançar a graça. Eles devem se reconciliar com o próprio clã, ainda segundo o analista. É esse O Testamento de Maria. Será igualmente o testamento de Elizabeth Bishop, que usou a poesia para superar o que Toíbín define como "desastre familiar".

O TESTAMENTO DE MARIA

Autor: Colm Tóibín

Tradução: Jorio Dauster

(Companhia da Letras, 88 págs., R$ 29)

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