Matemática e mistério

Em Dama do Mar, Robert Wilson cria uma encenação precisa, que combina com o realismo de Ibsen

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES , SANTOS, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2013 | 02h09

"Para ser honesto, sempre achei Ibsen um pouco chato", confessou o diretor Robert Wilson. Mais uma vez no Brasil, o norte-americano dirige agora uma montagem de A Dama do Mar, texto clássico do norueguês Henrik Ibsen.

Em conversa com jornalistas, logo após apresentar um ensaio do espetáculo que estreia hoje no Sesc Santos e chega a São Paulo no dia 25, o renomado encenador não falou o que se espera ouvir daquele que o New York Times definiu como "uma imponente figura do teatro experimental". Aparentemente, quando se trata de discutir seu trabalho, as explicações de Wilson nunca correspondem exatamente ao senso comum.

Não louvou o autor que escolheu: "Ibsen está sempre explicando tudo". Disse que recorre ao humor em textos de fundo dramático simplesmente porque "quem não vê graça nas coisas não pode fazer teatro. E não há porque montar uma tragédia como tragédia". Também explicou sua relação recente com o Brasil em termos bem diretos: "Quantas obras apresentei aqui no ano passado? Foram quatro? Então, quatro é um bom número. E eu ainda continuo aqui".

Continua. Mas, desta vez, faz diferente. Ao invés de trazer uma produção estrangeira, como nas outras ocasiões, criou agora uma montagem local, escalando atores brasileiros. A seleção do elenco aconteceu no começo de 2013. Ligia Cortez, Ondina Clais Castilho, Luis Damasceno, Hélio Cícero e Bete Coelho foram os seus eleitos.

Mas ninguém entendeu exatamente como ele chegou a esses nomes fazendo audições que duraram e pediram tão pouco. "Primeiro, um ator tem que completar o outro. Depois, quero saber se ele sabe ficar parado em cima do palco. É fácil ele ficar se movimentando para lá e para cá. Quero saber se consegue manter a atenção do espectador se estiver imóvel há dez minutos. Procuro perceber coisas simples: como ele fica de pé, como anda, como é o som da sua voz."

Todos esses atributos que Wilson exige dos intérpretes - aparentemente muito simples - são essenciais para seu teatro. Obras que rejeitam o naturalismo e tentam ser formalistas ao extremo. "O jeito como um ator fala em cena não é como ele fala normalmente. A sua maneira de sentar não é a mesma de quem senta em um ônibus. É um outro tempo."

O "outro tempo" do diretor é perceptível em A Dama do Mar. Ibsen pode não ser o dramaturgo da sua predileção. Mas neste texto é suficientemente "estranho" para agradar Wilson. "Como colocar uma sereia em cena? Ninguém sabe." Foi a escritora norte-americana Susan Sontag quem escreveu essa adaptação para o encenador. "Ela conhecia tudo o que eu fiz. Viu algumas das minhas peças mais de 15 vezes", conta ele. "Me sugeriu que eu fizesse Ibsen e escreveu essa versão para mim."

A estratégia parece ter funcionado: a peça, desde 1998, mereceu remontagens de Wilson em cinco países. "Nunca acho que um trabalho está pronto, por isso continuo a fazê-lo."

Soa quase contrassenso pensar em refazer tantas vezes uma obra em que parece não haver espaço para mudanças, em que cada elemento está marcado previamente. Cada mão que se move, cada mudança de luz, cada entonação. "É uma partitura que prevê todos os detalhes e na qual tudo está relacionado", comenta a atriz Bete Coelho.

Na peça, a protagonista Élida é uma mulher divida entre a ambição de encontrar o desconhecido e a vontade de manter-se em segurança. Dividida entre o marido burguês e um estrangeiro que lhe faz promessas de amor. Sem saber se deve apegar-se à terra ou mar.

São nuances de um drama do século 19 que continua a fazer sentido. Há uma discussão aguda sobre liberdade, sobre livre arbítrio. Mas há também metáforas que escapam ao entendimento, à lógica cartesiana.

Para quem vê, o impacto é o mesmo de qualquer uma das criações do diretor. Ele continua a manipular a iluminação como se pintasse quadros. E a lidar com tempo, silêncio e sons como se escrevesse uma composição musical.

A arte de Robert Wilson tem um tanto de matemática que transparece na encenação. A escrita de Ibsen, considerado um dos fundadores do teatro realista, começava a ganhar contornos simbolistas nessa Dama do Mar. Como conciliar matemática e mistério? Não é um encontro que faça sentido. Por isso mesmo é grande.

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