Kadokawa Pictures/Divulgação
Kadokawa Pictures/Divulgação

Masumura arte de ser cruel

Ciclo resgata o autor pouco conhecido que Quentin Tarantino celebra como o Douglas Sirk do Japão

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2011 | 00h00

Todos os caminhos conduzem ao Japão. A Sala Cinemateca, até dia 25, comemora os 80 anos de Yoji Yamada, responsável pela série mais longeva da história do cinema, É Triste Ser Homem, com mais de 40 títulos. Em DVD, a Signature Pictures está resgatando o clássico Hara-kiri, de Masaki Kobayashi, e outro filme que talvez não seja tão grande para os padrões traçados por Akira Kurosawa, mas é, mesmo assim, um dos maios belos do autor que era chamado de "Imperador" do cinema japonês, Rapsódia de Agosto. Com tudo isso - e já seria suficiente -, o Centro Cultural São Paulo e a Fundação Japão iniciam hoje uma programação dedicada a Yasuzo Masumura.

Yasuzo quem? Contemporâneo de autores que renovaram a produção de Hollywood nos anos 1950, como Samuel Fuller e Nicholas Ray, Masumura antecipou a nouvelle vague japonesa. O próprio título do ciclo que ele agora ganha - A Beleza Cruel de Masumura - dá uma pista sobre o que o espectador vai encontrar. Muitos críticos o comparam a Douglas Sirk. Seria o Sirk japonês, mas um Sirk mais dark e cruel. Não por acaso, virou um dos ídolos de Steven Spielberg e, principalmente, Quentin Tarantino.

Do total da produção de Masumura - 57 filmes -, o CCSP vai exibir 18, todos inéditos no País. Ilustram o conceito que tornou o autor famoso - "Meu objetivo é criar uma realidade exagerada, contendo apenas as ideias e paixões humanas, nada mais." E para que exigir mais, se a intensidade das paixões já basta para encher a tela, não apenas de conflitos, mas de uma beleza trágica? Masumura nasceu em 1924 e morreu em 1986, há 25 anos, portanto. No princípio, quis estudar leis, mas o cinema redirecionou sua trajetória. Nem por isso ele deixou de se interessar pelos aspectos legais - e letais - da existência humana.

O primeiro Masumura da programação, mas não da carreira do autor, é o esquete de um filme em episódios que investiga a natureza feminina. Jokyo conta três histórias de mulheres que enganam os homens. Como Kon Ichikawa e Kozaburo Yoshimura, Masumura tenta desvendar o mistério por trás das máscaras que elas usam para envolver, e manipular, os homens. É ainda um perfil de mulher o que ele propõe em Lady Pickpocket. E outro, em Confissões de Uma Esposa, todos de 1960/61.

Lady Pickpocket poderia se chamar Lady Vingança. Machiko Kyo, atriz mítica, rouba carteiras num trem expresso e é perseguida por inspetor de polícia. Tudo o que ela quer é vingar a morte do pai, que se suicidou, acusado de espionagem. Confissões reconstitui no tribunal, por meio de testemunhos conflitantes, a história de mulher que matou o marido para salvar o amante, durante a escalada de uma montanha.

Heitai Yakuza, que passa amanhã, integra os retratos masculinos de Masumura. O filme de 1965 mostra militar arrogante que faz muitos inimigos no Exército, mas tem pelo menos um amigo dedicado. O acidente que causa a morte de Hodaka em O Precipício, de 1958 - ele também despenca de uma montanha - é suicídio ou acidente? Os protagonistas de Gigantes e Brinquedos, outro filme de 1958, são o chefe do departamento de uma fábrica de doces e seu subordinado. Que eles fazem para incrementar a empresa e vender mais? O Japão transforma-se e se consolida como economia no cinema de Masumura. As pessoas muitas vezes pagam por isso. A crueldade de Masumura talvez seja, no fundo, somente uma crítica das engrenagens sociais.

A CRUEL BELEZA DE YASUZO MASUMURA

CCSP. Rua Vergueiro, 1.000, telefone 3397-4002. 3ª a dom., 16 h/18 h/20 h. R$ 1. Até 28/9.

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