Masp Vivo é um esqueleto na Paulista

Obras no anexo do museu estão interrompidas porque não foram cumpridas as obrigações contratuais, diz Telefônica

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2013 | 02h20

O Masp Vivo, anexo do museu que tem o principal acervo da América Latina, é um esqueleto exposto em público na Avenida Paulista. Tudo porque, segundo a Telefônica Vivo, que comprou e doou o prédio, o Masp "não cumpriu suas obrigações previstas no contrato, fazendo a empresa ingressar na Justiça, onde obteve decisão favorável que homologou um novo acordo". Pelo contrato original, de 30 de novembro de 2004, o Masp, segundo a Telefônica Vivo, deveria ter concluído o mirante do Masp em 2006 e os demais componentes do edifício em 2007. "A instituição e a empresa não chegaram a um acordo amigável em relação ao descumprimento contratual pelo Masp e, por isso, a Vivo entrou com uma ação judicial para resolver o problema", justificou ao Estado, por e-mail, a Telefônica Vivo.

Em 2009, foi firmado um novo acordo judicial, homologado em 11 de novembro daquele ano, que previa fevereiro de 2012 como novo prazo para o Masp disponibilizar o prédio - prazo novamente não cumprido pelo museu, segundo a Telefônica Vivo, que pagou R$ 13 milhões em 2011 ao Masp. "A Vivo ajuizou apenas uma ação judicial contra o Masp, no ano de 2007, em virtude dos descumprimentos do contrato pela instituição em 2006 e 2007", garantiu, nessa entrevista por e-mail, a empresa de telecomunicações. A decisão judicial dessa ação, segundo a Telefônica Vivo, estabeleceu que, em virtude do pagamento desse montante, a Vivo teria direito à propriedade de parte do edifício, proporcional ao pagamento por ela realizado. "Mesmo com tal decisão e o direito de fazer a execução judicial, a Vivo aceitou conceder um novo prazo para a instituição concluir as obras no edifício, o que demonstra a forma conciliadora como a empresa vem tratando o assunto."

Procurada pelo Estado, a diretoria do Masp não se manifestou, enviando nota, por meio de sua assessoria, em que diz entender que "a manifestação pública da Vivo para uma questão judicial privada é de responsabilidade exclusiva da empresa", afirmando que manterá a posição de não se manifestar "sobre uma questão sob compromisso de confidencialidade".

Seja como for, as obras do anexo do Masp já deveriam ter sido concluídas há um ano e seis meses e estão paralisadas. Segundo a Telefônica Vivo, o acordo judicial homologado em juízo há quatro anos outorgava à empresa condições de utilização de sua marca e ações de incentivo com seus clientes junto ao Masp. "Essa utilização depende essencialmente da entrega das obras e obtenção do habite-se, o que não aconteceu até agora."

A ideia de construir o anexo do Masp no edifício Dumont-Adams, ao lado do museu, nasceu em função da limitação dos espaços do seu edifício-sede na Avenida Paulista. No Masp Vivo, serão montadas exposições temáticas e deverá ser ainda instalado um laboratório de restauro, uma escola de pós-graduação em museologia e história da arte e, no topo do prédio, uma cafeteria, que seria mantida com patrocínio da Nestlé. Para continuidade da execução das obras de reforma e ampliação do prédio, foi aprovado um projeto via Lei Rouanet e firmado contratos de patrocínio com empresas.

Abandonado por mais de 20 anos, o prédio Dumont-Adams, inaugurado em 1956, começou a ser reformado sob a supervisão do arquiteto Luiz Pereira Barreto, provocando polêmica logo no início da recuperação: a Vivo queria instalar uma antena com um luminoso da marca no topo do prédio. Órgãos de defesa do patrimônio histórico conseguiram vetar o mirante. A empresa telefônica entrou na Justiça para reaver o dinheiro empregado na compra do prédio, mas, posteriormente, chegou a um acordo com o Masp, se contentando em batizar e explorar o nome Masp Vivo por 25 anos.

Entre as propostas que circularam na época do último acordo, além do nome Masp Vivo, a empresa telefônica exploraria um sistema de visitas guiadas às exposições por celular e ainda seria autorizada a exibir obras do acervo do museu em sua sede, na zona sul da cidade.

O projeto da reforma do anexo, de Júlio Neves, ex-diretor do Masp, também provocou discussão entre arquitetos, pois sua reformulação estética compreende uma nova fachada de vidro parecida com a dos prédios comerciais da Avenida Paulista, escondendo a fachada original neoclássica do edifício, que não é tombado, mas fica na área do Masp, tombado pelo patrimônio histórico.

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