Masp será tombado pelo Iphan. Talvez tarde demais

Quando a superintendência regional do Iphan-SP concluir seu laudo sobre o tombamento do Masp, até o final deste mês, antigas polêmicas virão à tona e, novamente, vão colocar frente a frente duas posturas antagônicas sobre a preservação - e o futuro - do mais importante museu da América Latina. A rigor, o prédio que será tombado em âmbito federal pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional não existe mais - pelo menos como foi concebido pela arquiteta italiana Lina Bo Bardi em 1957 (a construção começou três anos depois e o Masp foi inaugurado em 1968)."Sabemos que o projeto sofreu alterações na gestão do arquiteto Julio Neves. O caminho é tombar o projeto original, sem as mudanças posteriores, executadas sem a aprovação de Lina", diz o superintendente do órgão no Estado, Roberto Saruê. "Essas modificações não têm valor para efeito do tombamento nem para a sociedade brasileira." Segundo ele, o Iphan não pode pedir uma volta às condições originais, que incluem a pedra goiás bruta do 1.º e 2.º subsolos, marca do projeto moderno de Lina recentemente substituída por granito. "Mas, pessoalmente, eu defendo o piso original", diz Saruê. Entretanto, desde que o edifício seja tombado, Julio Neves não pode mais fazer alterações sem a autorização do órgão.Museu novo, briga antiga - O pomo de discórdia, e marca da descaracterização do museu, um problema que nem o patrimônio histórico em sua instância mais elevada vai enfrentar como se deve, é a retirada dos célebres cavaletes de vidro e concreto, menina dos olhos do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, abandonados na gestão de Neves. O diretor do Masp e o instituto que defende a memória e a obra do casal de italianos travaram por um ano e oito meses silenciosa briga no Iphan. O que está em jogo são dois pedidos de tombamento, que divergem exatamente na questão-chave do cavalete.O pedido do Instituto (apresentado em 27 de julho de 99) reclama, além do tombamento do edifício, o do sistema expositivo da pinacoteca. A proposta de Julio Neves chegou um mês depois, 26 de agosto, sem fazer menção aos cavaletes transparentes. Nos âmbitos municipal (Compresp) e estadual (Condephaat) o prédio do Masp - mas não os cavaletes - já é tombado desde 82. A previsão é que o tombamento seja concluído até junho. Saruê revela que o Iphan deve tombar todos os "equipamentos" do interior do Masp, incluindo os cavaletes, como "bens móveis", e não como "integrados". Na prática, a decisão não obriga a volta do antigo sistema e significa que cerca de 250 cavaletes podem ficar indefinidamente no porão.Marcelo Ferraz, arquiteto que trabalhou com Lina Bo Bardi por 15 anos, hoje diretor executivo do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, avisa que os cavaletes são parte integrante da arquitetura do Masp, assim como o vão livre e o piso original. "O tombamento em nível nacional é bem-vindo, mas é preciso que o Iphan faça uma recomendação, lembre que os cavaletes foram criados para a Pinacoteca e determine que sejam expostos da maneira como foram concebidos, nem que seja de forma temporária", pede ele. "Tombar como ´bem móvel´ para deixá-los no porão é chover no molhado, só garante que não sejam jogados no lixo."As justificativas de Neves para essa mudança radical no conceito do Masp - e a protelação de sua retomada - são as mesmas há pelo menos quatro anos (os paulistanos deram de cara com as paredes em novembro de 1996, na mostra Arte Italiana). Ele afirma que "os cavaletes podem até voltar, dependendo do tipo de exposição", mas nunca precisa quando isso vai acontecer. "Da maneira que o acervo é exibido agora, é impossível colocar aqueles cavaletes e dar aula para 40 crianças, já que eles ficam muito perto uns dos outros."

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