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Masp recebe notável concerto do trio de Praga

O Guarneri Piano Trio aproximou-se, anteontem, de uma execução notável de peças de Shostakovski e de Brahms

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO

16 Outubro 2015 | 19h18

Os oito primeiros compassos do Andante que abre o trio nº 2, opus 67, de Dmitri Shostakovich, constituem um desafio intransponível para um violoncelista: ele é obrigado a tocar solo com sordina em harmônicos na região mais aguda do instrumento. E quando, no sétimo compasso, o violino entra, ele o faz na região grave. Assim, ambos trocam de posição: o cello encarrega-se do agudo e o violino do grave.

Só em gravações obtém-se uma performance próxima da perfeição, por causa das picotagens em estúdio. Ao vivo, é uma corda bamba que transita entre o triunfo parcial e o fiasco iminente. O notável Marek Jerie, cellista do Guarneri Piano Trio de Praga, chegou perto de uma execução irretocável. Deslizes quase imperceptíveis, numa melodia lancinante, clima de tributo a Ivan Sollertingky, melhor amigo do compositor, morto dez dias antes do início da criação do trio, em 1944.

Entre os quatro movimentos, os mais conhecidos são o segundo, uma marcha sarcástica, e o último, “caos organizado”, como afirmou o excelente pianista Ivan Klansky, do Guarneri. Concisão, rispidez adequadíssima, sentimento de luto e revolta “silenciosa” – tudo isso esteve presente na execução impecável, anteontem à noite, no auditório do Masp, infelizmente para apenas meia casa.

Concerto sem intervalo, com apenas duas obras. Mas, que obras. E que intérpretes. Eles mantêm a formação original desde a criação do grupo, 29 anos atrás. Tocam por telepatia e foram capazes de reformular inteiramente a atmosfera da noite ao interpretar o trio nº 1, opus 8 de Brahms.

Normalmente, costumamos ouvir este trio como obra de juventude, que ele retocou no final da vida. Na verdade, este deveria ser considerado o último trio neste formato do compositor, já que ele mesmo escreveu à sua querida Clara Schumann, em 3 de setembro de 1889: “Recompus o meu trio em si maior e posso agora chamá-lo de opus 108, em vez de opus 8”. O Allegro con brio inicial, que o Guarneri fez de modo entusiasmante, exibe uma maturidade impossível num jovem de 21 anos.

O Scherzo: allegro molto, tocado pelos Guarneri com uma leveza dificílima de se obter em concerto, é o único dos quatro movimentos que permaneceu praticamente intocado na versão madura. É quase um corpo estranho impetuosíssimo convivendo com os demais movimentos, bem mais densos.

As mudanças no Allegro final foram drásticas. Brahms acrescentou um segundo motivo completamente novo – e isso provocou o abandono da versão original e a escrita de um novo Allegro. A nova versão, um dos pontos mais altos do concerto de anteontem no Masp, tem 200 compassos menos que a primeira, de 1854.

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