Masp/ Divulgação
Masp/ Divulgação

Masp em restauro

Mecenas financia a recuperação de uma obra-prima do museu

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2013 | 02h14

Mergulhado em permanente crise financeira que o levou até a atrasar a conta de luz há seis anos, facilitando o roubo de duas obras-primas de Picasso e Portinari, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand guarda em seu cofre alguns dos principais itens de seu acervo, mais de 8 mil obras que integram a maior coleção de arte europeia da América Latina. A maioria delas há anos não vê a luz do dia - desse acervo, pouco mais de duas centenas de trabalhos são expostas ao público, que há tempos não vê nas paredes do museu pinturas como o Retrato de Suzanne Bloch (1904), de Picasso, e O Lavrador de Café (1939), de Portinari, para citar apenas os dois quadros roubados do museu e recuperados em 2007. Perdem os visitantes brasileiros e estrangeiros que vão ao Masp atraídos pelo acervo e saem decepcionados sem ver, por exemplo, telas como o Autorretrato de Gauguin (Perto do Gólgota), O Torso de Gesso, de Matisse, e o ícone modernista brasileiro As Moças de Guaratinguetá, de Di Cavalcanti.

A ausência de algumas obras-primas ocorre principalmente pela ocupação da sede do museu com mostras temporárias, desvirtuando a missão que norteou a fundação do Masp, a de expor permanentemente seu acervo e educar o público brasileiro com a valiosa coleção adquirida por Assis Chateaubriand e Pietro Maria Bardi. Há, porém, outros motivos que afastam essas obras-primas do público. Um exemplo gritante é o valioso tondo (pintura sobre suporte redondo) do renascentista Piero di Cosimo (1461-1521), Virgem com Menino, São João Batista Criança e um Anjo (1500-1510), óleo sobre madeira que não é exposto há tempos por estar em más condições.

Felizmente, a pintura de Piero di Cosimo foi apadrinhada por um jovem estudante de 23 anos que, durante uma aula ministrada no auditório do museu, ficou comovido com a história do tondo, oferecendo-se para pagar as despesas referentes ao transporte e seguro da pintura, que vai para Roma ser restaurada por uma das maiores especialistas italianas no período, Paola Sanucci, diretora da Superintendência de Bens Artísticos em Roma. O jovem mecenas brasileiro, Inácio Bittencourt Rebetz Schiller, é um exemplo que pode estimular outros frequentadores, alarmados com o lamentável estado das instalações do museu, a sujeira de suas paredes externas e o precário estado de obras que são patrimônios da humanidade, como o tondo de Di Cosimo.

Recentemente, o Bank of America Merril Lynch investiu R$ 140 mil na restauração da tela Moema (1866), de Victor Meirelles, obra emblemática da construção do espírito indianista na arte brasileira. Outra obra-prima do Masp que teve há três anos sua cores recuperadas é Himeneu Travestido Assistindo a uma Dança em Homenagem a Príapo (1634-38), de Poussin, restaurada pela brasileira Regina da Costa Pinto Dias Moreira sob os auspícios do Museu do Louvre, parceiro do Masp. Duas funcionárias do museu participaram ativamente desse processo, a coordenadora de intercâmbio, Eugênia Gorini Esmeraldo, e a responsável pelo setor de restauração, Karen Cristina Barbosa.

"Como um museu privado com poucos recursos para conservação, temos desenvolvido projetos em parceria com outros museus, como o Louvre", diz a restauradora, que há 14 anos no Masp enfrenta o desafio de recuperar obras-primas, algumas seriamente danificadas no passado. "É por isso que preferimos mandar algumas obras para a Europa, como o tondo de Piero di Cosimo, que estará nas mãos de uma restauradora familiarizada com a obra do artista".

O Masp criou o programa de restaurações incentivadas visando doadores como Inácio Schiller. O fundo de investidores que ele administra vai desembolsar R$ 180 mil para as despesas do restauro. "Há muitas telas que precisam ser restauradas, como a de Reynolds e Ingres, cuja limpeza excessiva removeu a camada pictórica." Por razões éticas, a restauradora não fala de outras obras do acervo restauradas no passado, como o Retrato do Cardeal Cristoforo Madruzzo, de Ticiano, ou A Virgem com o Menino de Pé, de Bellini, ambas com sinais de problemática recuperação. "Claro que pinturas como a de Piero di Cosimo sofrem com a ação do tempo, e, afinal, muitos restauradores passaram por ela." Mas é evidente que uma profissional como Paola Sanucci faz diferença. Ela já restaurou Fra Angelico e Caravaggio.

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