Masp abre exposição de Renoir

Será inaugurada nesta terça-feira, em SãoPaulo, uma exposição de encher os olhos. Com 138 obras e algunsdocumentos, a mostra traz ao Brasil todo o esplendor de um dosmestres do impressionismo: Pierre Auguste Renoir (1841-1919). Acuradoria da mostra não apresenta nada de singular ou inovador.Trata-se mais de uma colcha de retalhos, viabilizada graças àpolítica de retribuição dos museus públicos franceses - eamericanos, em menor medida -, que durante anos solicitaramemprestadas as obras do artista presentes no acervo do Masp, masque apresenta um painel bastante representativo da produção deRenoir ao longo de sua vida. Dentre os museus que colaboraram com a exposição estão oMuseu d´Orsay, a Orangerie, o Museu Picasso, o Metropolitan deNova York e a National Gallery, de Washington. A BibliotecaNacional da França também teve um papel importante na concepçãoda mostra ao emprestar 55 gravuras, um desenho e um livroilustrado pelo artista e é esse núcleo gráfico que abre aexposição. Também não se pode esquecer o papel centraldesempenhado pelas 13 obras que pertencem ao Masp (e que sãoconstantemente solicitadas por eventos nos quatro cantos doplaneta) e da ajuda de outras coleções particularesbrasileiras. No caso das obras do Masp, destaca-se a obra emblemáticaRosa e Azul, uma espécie de síntese da pintura de Renoir, aoassociar o retrato infantil (um de seus temas mais caros) aotratamento cuidadoso da pincelada e da cor. Outro destaque doacervo é a tipicamente impressionista Menina com Espigas. Relação - Mesmo sem ter uma única espinha dorsal, aexposição procurou lançar mão de determinadas obras para enfocarde maneira mais detalhada um aspecto importante da biografia deRenoir: sua relação com a família Le Coeur. Além de terem umaimportância objetiva na vida do jovem pintor de origem modesta(pois foi por intermédio deles que Renoir conseguiu importantescontratos para decoração arquitetônica), os Le Coeurs servem deporta de entrada para enfocar um aspecto simbólico em suatrajetória: esta foi a primeira relação mais íntima do pintorcom a luminosa sociedade burguesa que ele passaria a retratarcom maestria. É exatamente essa capacidade de transmitir a alegriadescompromissada e o espírito burguês da segunda metade doséculo 19 que faz de Renoir um dos mais popularesimpressionistas. Evidentemente, ele também busca, como seuscompanheiros da célebre exposição, que deu origem ao movimentoimpressionista, organizada em 1874 no ateliê do fotógrafo FélixNadar (cujas fotografias também estão, coincidentemente, emexposição na cidade), captar nos quadros a luminosidade difusa,usando todas as armas para cativar o olho e não a razão. Mas nemde longe ele leva a pesquisa formal tão a fundo quanto Monet,que abre as portas para a abstração com suas linéias distorcidasdo fim da vida nem se dedica a um tema de maneira tão obsessiva,como faz Degas com a idéia de movimento. Os amigos, aliás, estãorepresentados em uma das salas da mostra. Ele simplesmentepinta. Principalmente retratos, mas também paisagens,naturezas-mortas e banhistas nuas que traduzem em imagens o queos franceses chamam de "joie de vivre" (ou alegria de viver). Aliás, depois da maturidade, Renoir revelou umatendência de retorno aos padrões clássicos da pintura, comorevelam as várias telas de fartas mulheres nuas presentes naexposição. Mas voltando aos Le Coeurs, eles também estãorelacionados a outro capítulo oculto da biografia de Renoir.Consta que durante algum tempo o pintor Jules Le Coeur e Renoirnamoraram duas irmãs, Clémence e Lise Tréhot. Renoir teve umafilha com Lise, chamada Jeanne, da qual não pôde cuidar emdecorrência da guerra da França com a Prússia, o que parece ter causadogrande tristeza ao pintor, que revela em seus quadros grandeafeição às crianças. Apesar de não tê-la reconhecidooficialmente, ele ajudou a mantê-la até sua morte e parece atéque assistiu a seu casamento. Além de Jeanne, Renoir teve outrostrês filhos legítimos e teve uma vida relativamente tranqüila,atrapalhada apenas pelo grave reumatismo que o acometeu nasúltimas décadas, obrigando-o a viver numa cadeira de rodas e aamarrar os pincéis aos braços para pintar. Filha ilegítima - A história dessa filha ilegítima,contada no detalhe pelo catálogo da mostra, é o fio que acuradora do Museu d´Orsay e responsável pela mostra do ladofrancês, Anne Distel, diz ter encontrado para conduzir aexposição brasileira. Em seu texto, ela afirma que essa é "umadas descobertas que fazem a alegria dos pesquisadores" e que"oferecia à futura exposição um novo ponto de atração". Infelizmente, a decisão de privilegiar uma passagembiográfica de Renoir, sem o devido acompanhamento de umareflexão sobre o impacto dessa história sobre sua obra - se éque ele existe -, faz com que os outros fios condutorespossíveis, como a reação de Renoir ao impressionismo dajuventude (também mencionada), ou a importância das obras deRenoir para a coleção do Masp (analisada no texto daconservadora Eugênia Gorini Esmeraldo, que assina a curadoriapelo Masp) fiquem em segundo plano. O cineasta Jean Renoir, emlivro dedicado ao pai, conta que certa vez o pintor teria dito:"Eu, gênio? Essa é boa... Não me drogo, nunca tive sífilis, nãosou pederasta. Então..." Parece que Renoir tinha razão. Na eramodernista, que viu nascer, é importante chamar a atenção. E nafalta de drogas e loucura, resta sempre uma filha natural paradesempenhar esse papel. Essa situação é apenas mais um reflexo da ausência de umprojeto curatorial definido para o Masp. Uma exposição de Renoirsempre será uma bela exposição, ainda mais com a colaboração detantas instituições importantes. Mas não deixa de ser uma penaperder a oportunidade de estabelecer uma linha curatorialoriginal sobre um dos maiores pintores da era moderna e quesempre encantou o grande público, como revela a grande procurapor agendamento de visitas escolares à mostra.Renoir - O Pintor da Vida - De terça adomingo, das 11 às 18 horas. De R$ 5,00 a R$ 10,00. Agendamentopelo tel. 283-2585. Masp. Avenida Paulista, 1.578, em São Paulo.Tel: (11) 251-5644. Até 28/7. Abertura às 19 horas.

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