MÁSCARAS DA SOLIDÃO

Com recursos mínimos e muito talento, montagem forte e concisa de André Pink tem como alvo a neurose da beleza

O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2013 | 02h08

Coquetel Molotov é a definição do diretor André Pink para seu espetáculo O Homem Feio, de Marius von Mayenburg, talento recente do teatro alemão (nasceu em 1972). Vale repetir que o referido coquetel é arma incendiária para combates de rua. Basta uma garrafa de gasolina embrulhada num pano em chamas e atirada contra o alvo. O líquido se espalha e tudo se inflama. Mayenburg, aparentemente, tem como alvo principal a neurose da beleza fabricada via operações plásticas sucessivas e anomalias assemelhadas (o rosto de botox, etc.).

Evitando o protesto moral de viés conservador, o dramaturgo cria um terror realista com toques de comicidade. Um homem feíssimo tem o seu rosto mudado por um médico meio cientista perverso. Não se precisa mais de Corcundas de Notre Dame, Nosferatus, Fantasmas da Ópera. Em nome do ideal de beleza, qualquer pessoa pode ficar lindamente sinistra. Para além das vaidades distorcidas, essa anomalia tem vínculos com dinheiro, negócios, profissão, família, política, tudo o que se quiser. O pacto de Fausto e o Retrato de Dorian Gray - antes situações metafísicas - ficaram fáceis. Deixou de ser demoníaco para ingressar na cultura fashion. Nada a ver com os importantes e os justos e generosos avanços médicos de restauro dos defeitos da face.

Mayenburg esparrama sua bomba crítica na uniformização dos costumes. Na alienação subjacente aos ideais de juventude eterna pela exaltação dos cosméticos. A peça, com virulência e exagero metafórico calculado, fala de um tipo de vida em que ninguém sabe mais quem está na sua cama. É o parceiro (a) real ou a cópia? A linda mulher pode ser Daryl Hannah e o belo homem Rutger Hauer, os replicantes do filme Blade Runner.

No fundo, aparece o dado invisível e doloroso da solidão. A figura emblemática de Michael Jackson paira no clima da representação. Ele é uma das sombras que se projetam tanto em revistas de celebridades instantâneas como no anonimato da rua com figuras repuxadas, refeitas e distorcidas. André Pink condensa essas fantasmagorias numa representação intensa e concisa. É digno de nota um espetáculo forte realizado em um simples praticável de madeira, tendo como cenário de fundo um pano branco, quase um lençol. Reverso inteligente da síndrome das "novas teatralidades" com projeções, vídeos, teatro-cinema e outros hibridismos.

No palco estão interpretes recém-formados pela Escola de Arte Dramática de São Paulo (EAD). Todos bons: Alex Houf, Camilo Schaden, Fernando Hartmann, Fanny Miglioranza, Danilo Gambini. Diretor e elenco pegam "o touro à unha" (expressão universal que Pink por distração atribui aos ingleses). Ou seja: trazem a luz da criação com um mínimo de recursos cênicos e bastante talento. O espetáculo que termina a temporada esta semana faz parte do projeto Primeiro Sinal, do Sesc, para produções diferenciadas seja no texto ou na sua execução. O Homem Feio resulta assim em teatro bonito.

Crítica: Jefferson Del Rios

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