Jonne Roriz/AE
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Máscaras da civilização, por Milton Hatoum

Leia a íntegra da palestra do colunista do 'Estado' no colóquio 'Euclides da Cunha 360º - A obra e o legado de um intérprete do Brasil', realizado para lembrar o centenário de morte do autor de 'Os Sertões', Euclides da Cunha

Milton Hatoum,

24 Agosto 2009 | 16h07

Em dezembro de 1904, quando Euclides da Cunha desembarcou em Belém, ele já havia lido vários relatos de viajantes e naturalistas sobre a Amazônia. Numa carta a Coelho Neto enviada de Manaus, ele cita o título do livro que pretendia escrever - Um paraíso perdido -, "onde procurarei vingar a Hiloe maravilhosa de todas as brutalidades das gentes adoidadas que a maculam desde o século XVII".      

 

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Euclides não teve tempo para realizar plenamente essa vingança intelectual. Mas escreveu sobre a região vários artigos e ensaios, reunidos no livro Contrastes e confrontos e na obra póstuma  À margem da história. Escreveu também o "Relatório da comissão mista brasileiro-peruana de reconhecimento do alto Purus".

 

Para o escritor, esse afluente meridional do Amazonas é uma espécie de metonímia da Amazônia. Com William Chandless e Manuel Urbano, ele foi o maior "biógrafo" do Purus, tendo alcançado em agosto de 1905 as cabeceiras desse rio que ele lamentava ser um "enjeitado, inteiramente abandonado", mas que considerava "uma das maiores dádivas de uma natureza escandalosamente perdulária". Mais do que isso, Euclides viu a possibilidade de incorporar o grande afluente ao progresso do país, pois no leito do Purus se traça "uma das mais arrojadas linhas da nossa expansão histórica".

 

Hatoum diz que Euclides considerava o Rio Purus, cujas cabeceiras alcançou em agosto de 2005, uma espécie de metonímia da Amazônia. Foto: Thiago Queiroz/AE

 

Essa expansão histórica será um dos focos principais de seus ensaios, cujas análises sobre a economia extrativista e o povoamento das margens do Purus são fundamentais para o estudo e a compreensão dessa parte da Amazônia. Mas há também nesses ensaios um ou outro equívoco ou contradição que vale a pena comentar.

 

Nos ensaios de À margem da história sua visão sobre a Amazônia é pendular: a natureza é portentosa, o clima é dotado de uma "função superior", ou é "admirável" e "prepara as paragens novas para os fortes, para os perseverantes e para os bons". No outro extremo do pêndulo, prevalece uma visão negativa, em que a natureza é destruidora, pois o caos, a desordem e a inconstância são fatores de degradação humana. Algumas frases, de forte efeito retórico, resumem sua visão. Por exemplo: "Tal é o rio [Amazonas], tal a sua história: revolta, desordenada, incompleta". Uma dessas frases - do ensaio Terra sem história - é emblemática: "A natureza soberana e brutal, em pleno expandir de suas energias, é uma adversária do homem".

 

Essa frase é importante, talvez decisiva, para a reflexão euclidiana sobre a Amazônia, pois nela há uma oposição, uma separação entre a natureza e o ser humano. Para ocupar e povoar o território é necessário domar a natureza, que, para Euclides, é uma adversária e, até mesmo, uma "perigosa adversária do homem", como ele escreveu numa carta a José Veríssimo.

 

No entanto, a natureza, mesmo sendo hostil, é histórica. A Amazônia era e ainda é habitada por dezenas de milhares de índios que dependem da natureza não apenas para sobreviver, mas também para praticar rituais simbólicos indissociáveis de sua cultura e, portanto, de sua própria vida.

O homem a que se refere Euclides é o forasteiro, não o nativo. Na visão do escritor, as sociedades nativas - índios e caboclos - são inaptas para desempenhar papel relevante no processo civilizador da Amazônia.

 

Euclides se contradiz para tentar provar que aquele território é uma terra sem história. Em vez de se vingar "de todas as brutalidades das gentes adoidadas que maculam a Amazônia desde o século XVII", ele recorre a essas mesmas crônicas e relatos do passado - os mesmos que antes ele criticara por excesso de fantasia - para afirmar que a raiz dos vícios da terra é a preguiça, como escreveu em 1762 o bispo do Grão-Pará frei João de São José, que, nas palavras de Euclides, "resumiu os traços característicos dos habitantes deste modo desalentador": "lascívia, bebedice e furto".

 

Que o republicano Euclides chame esse bispo beneditino "seráfico voltairiano" já é desalentador. Acreditar nas palavras de um missionário considerado voltairiano é quase uma aberração para os leitores de Voltaire.

 

Trata-se de uma tipologia negativa sobre os povos considerados exóticos, uma rede de estereótipos construída pelos jesuítas e viajantes europeus do século XVIII. Esse discurso, que estabelece uma hierarquia racial entre os povos, foi muito difundido na Europa do século XIX, quando as duas maiores potências imperialistas - França e Inglaterra - atribuíam aos africanos e orientais traços de caráter inferiores aos dos europeus. No contato destes com outros povos, as diferenças percebidas e comentadas marcavam sobretudo um novo limite das conquistas e da expansão europeia, não uma nova substância de uma sociedade. Os outros - os exóticos - formam uma espécie de "grau zero da humanidade". Esses mesmos traços depreciativos foram assinalados por vários viajantes e naturalistas, inclusive Alfred Russel Wallace, que viu na "sociedade indisciplinada" um comportamento moral nada edificante, como "beber, jogar e mentir".

 

Além de concordar com essa visão estereotipada dos nativos, Euclides menciona "o incoercível da fatalidade física", o clima como um "perpétuo banho de vapor" que nos faz compreender a "vida vegetativa sem riscos e folgada, mas não a delicada vibração do espírito na dinâmica das ideias".

O determinismo climático, tão presente n'Os sertões, também é corroborado pelas palavras do médico italiano Luigi Buscalione, que, segundo Euclides, "caracterizou as duas primeiras fases da influência climática [sobre o forasteiro] a princípio sob a forma de uma superexcitação das funções psíquicas e sociais, acompanhada, depois, de um lento enfraquecer-se de todas as faculdades, a começar pelas mais nobres [...]".

 

É estranho que Euclides, leitor de João Daniel, Alexandre Rodrigues Ferreira, mas também de Tenreiro Aranha, José Veríssimo, Tavares Bastos e de tantos historiadores brasileiros, não tenha lido nada sobre a Cabanagem, o movimento popular de índios, caboclos e negros da província do Grão-Pará contra os desmandos e a opressão do império durante o período regencial. Nessa revolta, duramente reprimida, morreram 30 mil pessoas. É também surpreendente que o escritor não tenha percebido - ou talvez não quisesse perceber - que Manaus e Belém, as duas capitais da Amazônia, foram construídas por uma mão de obra formada em sua maioria pela população nativa, que também trabalhava em muitos seringais dos rios Madeira e Amazonas, e até mesmo nas cercanias de Manaus.

 

Penso que Euclides menosprezou a sociedade nativa porque esta não se ajustava a seu ideal de progresso e a sua missão civilizadora, que incluíam a posse e o povoamento sistemático do que ele chamava "terra ignota" e "deserto". Homens fracos, preguiçosos e viciados não podem enfrentar a "inconstância da base física onde se agita a sociedade".

 

Quem adquire relevância nos estudos euclidianos é o brasileiro que se desloca do Nordeste para trabalhar na Amazônia. São os sertanejos - parentes próximos dos conselheiristas combatentes de Canudos - que se encontram no centro das análises histórico-sociais de Euclides. O "caboclo titânico" é o nordestino do sertão. Ou seja: o seringueiro, "o homem que trabalha para escravizar-se", os seres que mourejam no "paraíso diabólico dos seringais", essa antítese que ele nomeia sem hesitação e com razão "a mais criminosa organização do trabalho que engenhou o mais desaçamado egoísmo".

 

O nômade e o sedentário

 

Os vetores da civilização na Amazônia não serão os nativos, muito menos os caucheiros peruanos. Os primeiros são bárbaros, primitivos ou indolentes; e os caucheiros "se fingem de bárbaros para vencer o bárbaro".

 

Oriundo de Lima ou Arequipa, o caucheiro torna-se um nômade profissional, "irritantemente absurdo na sua brutalidade elegante, na sua galanteria sanguinolenta e no seu heroísmo à gandaia. É o homúnculo da civilização".

 

A crítica implacável à atividade do caucheiro refere-se não apenas à brutalidade de caçadores e matadores de índios, mas também ao nomadismo, que não fixa o homem na terra, não pratica o que o escritor chama "colonização intensiva". É também um ser bruto, que se dedica ao "tráfico criminoso" de compra e escravização de mulheres indígenas, que explora os cholos e índios e acumula uma fortuna para depois gastá-la em Paris. Nesse sentido, o caucheiro peruano e o seringalista brasileiro não diferem quanto à forma de exploração da mão de obra que utilizam para a extração da borracha. Os proprietários de seringais também foram duramente criticados por Euclides em vários ensaios. Em Um clima caluniado, ele escreveu a frase famosa: o seringueiro é o homem que trabalha para escravizar-se.

 

O nomadismo dos caucheiros não deixa que criem raízes ou que tomem posse do território. São "estranhos civilizados, passando como uma vaga devastadora e deixando ainda mais selvagem a própria selvageria". Os "barracones, embarcaderos e caseríos" que Euclides vê em Cocama e Curanja, à margem do Purus, espelham "a miragem de um progresso", pois esses entrepostos comerciais desaparecem num decênio. A exploração nômade implica uma fixação efêmera, "de caráter provisório", ao contrário dos seringais brasileiros, que permitem uma exploração estável, criando núcleos comerciais e povoados que resistem ao tempo.

 

Euclides escreveu palavras apologéticas sobre o seringueiro, pois este sobreviveu ao regime de trabalho semi-escravo que lhe foi imposto e resistiu à natureza tumultuária e inconstante. Um herói de feição quase romanesca, cujos atributos são "a força titânica, a vontade, a pertinácia, um destemor estoico e até uma constituição física privilegiada". Para ilustrar esse heroísmo, Euclides usou uma expressão darwiniana - a seleção natural dos fortes - que é também um eco de sua famosa frase sobre os combatentes de Canudos: o sertanejo é, antes de tudo, um forte.

 

Os seringueiros serão, portanto, os protagonistas da história, os agentes civilizadores, os domadores do deserto, "os caboclos titânicos que ali estão construindo um território". A ocupação do Acre e das margens do Purus e do Juruá está relacionada à construção e demarcação de um território, que, por sua vez, é uma afirmação da nacionalidade. Essa ideia, tão recorrente que beira a obsessão, tinha sido elaborada por Euclides em dois artigos importantes publicados em O Estado de S. Paulo em maio de 1904, antes, portanto, de sua viagem à Amazônia.

 

Se a expansão histórica que ele vislumbrou no extremo ocidental da Amazônia foi de fato realizada, os povoados e cidades do Purus - e de outros rios da Amazônia - parecem abandonados, decadentes, sem os avanços e vantagens do progresso, e sem as normas da civilização. Ironicamente, o que ele nomeou "miragem de um progresso" na região peruana do Purus serve também para outras latitudes do Brasil, tanto no interior quanto nas metrópoles.

 

Como se sabe, a miséria, o desemprego e a ausência de políticas públicas não são atributos apenas daquela região; fazem parte de um desenvolvimento à gandaia, extremamente desigual e injusto, e ainda de um sistema político moralmente falido, de uma relação promíscua entre os notáveis das instituições republicanas, que não vem ao caso comentar aqui. As iniquidades, em maior ou menor grau, estão por toda parte.

 

* * *

Se Euclides teceu uma visão distorcida sobre os caboclos da Amazônia, não se pode dizer o mesmo em relação aos índios peruanos e seringueiros brasileiros. A meu ver, um dos textos mais densos de À margem da história é "Judas Asvero", que comentei em outra ocasião.

 

Nesse breve relato euclidiano, o olhar cientificista dá lugar a uma figuração das relações sociais, em que a imaginação, inspirada na experiência de quem de fato testemunhou a vida dos trabalhadores nos seringais, constrói um quadro melancólico durante o sábado de Aleluia, quando "os seringueiros vingam-se, ruidosamente, dos seus dias tristes". Em "Judas Asvero" há um olhar sobre a história, a geografia, a religião e o meio socioeconômico, mas sem um narrador que pretenda enquadrar numa hierarquia de valores os seres de quem fala. Por tudo isso, e também pela construção da narrativa, com ênfase na vida dramática dos personagens-seringueiros, transformados em pobres e talentosos escultores anônimos, o relato tende a ser muito menos explicativo ou assertivo, e muito mais literário. O ornamento e a pompa da linguagem são atenuados por uma escrita sóbria, cujo conteúdo de verdade convence muito mais do que uma mistura de cientificismo com etnografia ingênua e patriotismo exaltado.

 

Não menos relevantes são as duas páginas finais de "Os caucheros", em que Euclides narra uma visita a um posto abandonado, pouco acima do Shamboyaco. A casa principal - do seringalista - e as vivendas menores, dos empregados, estão destruídas, arruinadas pela "mata que reconquistava o seu terreno primitivo". Aí, de fato, a natureza se regenera, sem ser brutal ou perigosa. O que de fato é brutal e mesmo trágico é o destino do ser humano.

 

Euclides e os membros da comitiva descobrem num dos casebres o último habitante do lugar: um índio. Não se sabe se ele pertence à etnia amauaca, piro ou campa. Com o corpo deformado pelo impaludismo, esse pobre-diabo de aspecto monstruoso foi abandonado pelos companheiros, vegetando na solidão absoluta. O que impressiona nesse breve texto, além da linguagem, do artifício verbal, é como o narrador junta muitas coisas em apenas cinquenta linhas. Do ponto de vista literário e histórico, penso que é tão incisivo e sugestivo quanto algumas passagens da novela Coração das trevas, de Joseph Conrad.

 

Um índio agonizante, abandonado numa tapera em meio a uma "ruinaria deplorável". Um corpo - uma coisa indefinível - que assemelha "menos um homem que uma bola de caucho ali jogada a esmo". O ser humano degradado se confunde com a mercadoria. Corpo e caucho, simbolicamente juntos, pertencem ao reino das ruínas, que não exclui a língua, pois a fala do índio agonizante é incompreensível. Rompida a comunicação, a única palavra em castelhano que ele consegue balbuciar é: Amigos.

Para Euclides, essa palavra é dirigida aos "desmandados aventureiros que àquela hora prosseguiam na faina devastadora".

 

Mas há uma terrível ambiguidade quanto ao destinatário da palavra balbuciada. Ela pode ser dirigida ao

próprio Euclides e aos membros da comitiva. E por que não pensar que "Amigos" é uma palavra destinada também aos leitores? Nós mesmos, que estamos lendo este texto e ouvindo o eco dessa palavra balbuciada por um "lastimável aborígene sacrificado". Porque, mais de um século depois, nós também somos espectadores dessa realidade trágica, cujos protagonistas Euclides nomeia "construtores de ruínas".

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