Mas...

Todos nós devemos ter lado, e deixar claras nossas convicções, nossas certezas e até nossas birras. Mas há questões em que a única posição sensata é em cima do proverbial muro, e sobre as quais você não tem opinião. Ou porque nunca parou para pensar no assunto, ou porque o assunto não depende da sua definição (quatro-quatro-dois, três-cinco-dois ou quatro-três-três, que diferença faz sua preferência se não é você quem escala o time?) ou porque o assunto não tem mesmo lado para ser escolhido. Ou pior: tem tantos lados que qualquer um que você escolha será uma injustiça com os outros.

VERISSIMO, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2014 | 02h06

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Os assuntos sobre os quais é difícil ter uma opinião firme vão do corriqueiro - abotoar a camisa de cima para baixo ou de baixo para cima, deixar ou não deixar a gema do ovo para o fim, Patrícia Pillar ou Patrícia Poeta? - às últimas dúvidas do Universo e da vida, passando pela política e seus alçapões. Por exemplo: religião. Você não acredita em Deus, acha que todas as religiões são resquícios infantis de superstições pré-históricas que não resistem a dois minutos de argumentação racional, quando não são vigarices abertas, mas... E se o engodo religioso for necessário para nos manter a mente sana? E se catequizar contra a religião for roubar das pessoas a sua única defesa contra a angústia?

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As religiões prometem derrotar o inimigo comum de todos, até dos ateus convictos: a morte. A grande mensagem de quase todas as narrativas religiosas é a da ressurreição. E a vitória sobre a morte independe da existência ou não de um céu e um deus. Nisso, estamos com as religiões literalmente até o fim. Podem nos chamar de ateus carolas.

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Também é difícil ter opinião firme sobre o conflito eterno entre judeus e palestinos no Oriente Médio. Simpatizamos com os judeus e com a luta de Israel para prevalecer num meio que nega a sua existência. Um país tem todo o direito de usar toda a sua força para simplesmente existir. Mas... Também há o lado dos palestinos e seus direitos negados, e sua pretensão de também ter um Estado e sobreviver. E há o direito mais importante de todos, o de cidadãos de toda a região deflagrada estar livre de morrer só por estar no lugar errado, na hora errada. Qual é o lado certo na questão do Oriente Médio? Que posição deve ser a nossa? Benvindo ao muro.

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