O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2012 | 02h08

a entrevista a seguir, José Paulo Netto, que assina a apresentação da Ontologia, comenta alguns aspectos do pensamento de György Lukács. Professor emérito da UFRJ, ele pontua o papel que o livro desempenhou na evolução da filosofia do autor, analisa o efeito que algumas concepções neopositivistas da linguagem e da ciência podem ter sobre a política e faz uma ponderação sobre a importância da cultura para o pensador húngaro.

Na apresentação do livro Para Uma Ontologia do Ser Social (1968), o senhor menciona essa obra como fruto de um movimento no qual Lukács tenta um "renascimento do marxismo". Em que sentido se deu esse renascimento?

No plano do desenvolvimento do marxismo, o filósofo sustentou que a nota dominante do regime stalinista foi a dogmatização. Para ele, a superação efetiva da pesada herança do período de Stalin implicava um esforço teórico não só para recuperar o que julgava ser o autêntico espírito do pensamento marxiano, asfixiado a partir dos anos 1930, mas sobretudo para, a começar desta recuperação, analisar e compreender a realidade do capitalismo contemporâneo e a própria problemática do socialismo existente.

Lukács projetou a sua Ontologia de modo articulado à sua Estética e à sua Ética. Como ocorre essa articulação em seu pensamento?

Lembremos que a Estética publicou-se em 1963 e a Ética nunca foi redigida. Lukács concebeu originalmente a Ontologia para ser tão somente a "introdução" à Ética. Contudo, a impostação ontológica do marxismo de Lukács emerge já nos anos 1930 e, desde então, percorre toda a sua obra, embora só tenha a sua centralidade afirmada abertamente e exponenciada na década de 1960.

Qual seria, para Lukács, a consequência política mais evidente do neopositivista no marxismo?

Não se trata de eventuais influxos das formulações dos pensadores neopositivistas, mas da incorporação de um quadro teórico-conceitual, socialmente determinado, cujo viés epistemologista e antiontológico se adapta à legitimação de uma práxis essencialmente instrumental. No plano imediatamente político, isto se traduziu numa concepção administrativa do processo social, derivando no burocratismo e no comportamento manipulador próprio das instâncias político-partidárias do regime stalinista.

Segundo Lukács, "a política é o meio, a cultura é o fim". Nesse sentido, mesmo partindo de uma estreita relação entre cultura e política, haveria uma distinção metodológica essencial entre ambos?

Você recordou aquele que me parece ser o mote de toda a obra de Lukács, o "núcleo problemático original" (a expressão é de Mészáros) que sempre vertebrou o pensamento do filósofo húngaro. E, na própria formulação, fica evidenciado o diferente estatuto que Lukács atribuiu à cultura e à política. Sem ter da política uma concepção meramente instrumentalista, Lukács jamais conferiu a ela o significado que adjudicou à cultura. Para dizer de maneira breve: a política é tão somente um conjunto de meios e atividades através dos quais, nas sociedades que ainda não transcenderam a exploração, a alienação e as múltiplas formas de opressão, os homens travam as lutas emancipatórias que podem abrir a via ao "reino da liberdade". Neste, que nunca imaginou ser um paraíso terrestre livre de tensões e conflitos, o pensador húngaro visualizava a possibilidade de novas modalidades de desenvolvimento cultural pleno. / R.P.

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