"Marvels Zero" sem cortes é lançado no Brasil

Só mesmo Alex Ross para imprimir charme nesses tempos em que os lançamentos de HQs de qualidade estão escassos. Mesmo que soe como picaretagem, vale a pena conferir o especial Marvels Zero, que a nova editora Pandora Books acaba de lançar no País (R$ 4,90). Quem é fã de quadrinhos, deve se lembrar da minissérie Marvels, que causou reboliço em meados dos anos 90. Era uma daquelas edições caprichadas, maravilhosas, que, mal chegam às bancas, já entram para a História das histórias em quadrinhos. Foi lançada aqui pela Abril em formato americano, papel excelente e capa de acetato. Naquela época, a arte matadora - pintada e realista - de Ross ainda era novidade para os leitores, mas subverter e desconstruir os mitos dos super-heróis já era moda. Uma mania que vinha desde todas aquelas coisas bacanas de Alan Moore e Frank Miller, no final dos 80. Marvels, em quatro partes contava histórias do passado de alguns heróis empoeirados do universo Marvel - Homem de Ferro, Surfista Prateado, Tocha Humana -, narradas por pessoas do povo, aquelas que estão sempre fazendo figuração nas cenas e exclamando "oh!" quando os super passam voando pela grandes metrópoles quadrinizadas. E tinha um ponto interessante: expunha a maneira pouco amistosa com que os humanos recebem as "maravilhas", seres dotados de poderes estranhos, como a combustão espontânea, de Tocha Humana. Nada é fácil na vida dos super-heróis de Ross. Marvels Zero, mais de cinco anos depois, é a parte, digamos, secreta da história famosa de Alex Ross e Kurt Busiek (o roteirista, um dos mais festejados hoje). Traz aquele tipo de "história por trás da história" com muitas ilustrações inéditas e esboços de páginas. O mais bacana da edição é a inédita que Ross e Busiek fizeram para o Tocha Humana, que não foi aproveitada na edição de Marvels. Ross procurou Busiek já com os primeiros desenhos do que viria a ser a série Marvels e com todas as idéias visuais na cabeça. No prefácio desta nova edição, Busiek chega a admitir que teve apenas de pôr texto na arte que o amigo lhe entregou. Criado o texto, a dupla entregou o trabalho e a prosposta de uma série para a editora Marvel, uma das maiores do mundo. Num primeiro momento, eles rejeitaram, mas gostaram tanto da arte de Ross que resolveram fazer algumas modificações para poder lançar. O resultado destas mudanças na idéia original a gente já conhece. E é justamente o que foi rejeitado pela Marvel - aquelas idéias visuais de Ross - que os leitores poderão ler agora em Marvels Zero. A história, feita em 1990, conta o "nascimento" do Tocha Humana, criado em laboratório por um cientista maluco. Tudo descaradamente copiado de Frankenstein. A diferença desta história para o que viria a ser mesmo publicado é que o ponto de vista é sempre o do Tocha (depois, ele seria transferido para populares), suas angústias e medo, daquele tipo que tomam os sujeitos que costumam pegar fogo sem maiores motivos. Claro que os leitores exigentes vão ler e concluir o óbvio: ainda bem que os editores da Marvel sugeriram mudanças! Mesmo assim, fica para Marvels Zero a curiosidade e o gostinho de estar vendo algo inédito da arte de Ross. Nela, sabemos, nada é descartável.

Agencia Estado,

19 de janeiro de 2001 | 12h39

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