Disney Studios
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Marvel traça seu futuro ao apostar no multiverso

Estúdio ganha fôlego ao criar filmes com tramas ambientadas em realidades paralelas

Matheus Mans, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2022 | 05h00

O lançamento do trailer de Thor: Amor e Trovão causou uma surpresa generalizada: em vez de Chris Hemsworth, quem empunha o lendário martelo Mjölnir é Natalie Portman. No lugar de Anthony Hopkins como Odin, morto em uma das aventuras dos Vingadores, está um bonachão Russell Crowe. Nas redes sociais, fãs já começaram a se questionar: será que é a Marvel entrando ainda mais nas maravilhas, desafios e surpresas do multiverso?

Não se sabe, por enquanto, se a nova versão de Thor e Odin, que estreia dia 7 de julho, é parte dessa colisão de universos ou se existirá uma explicação dentro do próprio Universo Cinematográfico da Marvel (UCM), sem viagens temporais. Mas o fato é que esse termo, de apenas dez letras, tem revolucionado uma franquia de filmes que começou oficialmente em 2008 com O Incrível Hulk e já acumula mais de 20 filmes, seis séries originais e bilhões de bilheteria.

“Se, de 2008 para cá, a Marvel Studios apostou na criação do universo compartilhado conectando seus filmes como acontece nos quadrinhos há bastante tempo, o sucesso dessa empreitada abre as portas para que a estrutura do multiverso seja o próximo passo no audiovisual”, diz Antônio Davi Delfino, doutor em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará e autor de Universo Compartilhado Marvel: Dos Quadrinhos ao Cinema

Antes de entender mais sobre o multiverso, vale a pena conhecer como ele surgiu. Apesar de novo no UCM, ele já é sessentão nos quadrinhos: a ideia apareceu em 1962, quando Tocha Humana, do Quarteto Fantástico, visita a Quinta Dimensão em Strange Tales #103. Foi mais uma brincadeira científica, aproveitando o viés cósmico desse quarteto de heróis. Era, até então, mais uma sacada localizada e específica, sem maiores pretensões.

Só que a Marvel viu, nessa possibilidade, uma forma de corrigir situações que se contradiziam nos quadrinhos, muito por conta das histórias escritas por diferentes artistas e roteiristas. Com isso, o termo aparece de fato em 1977, em What If?, publicação que, tal qual a série, explorava personalidades de personagens conhecidos e reunia grupos que, nas revistinhas normais, quase nunca se cruzavam ou nas quais viviam até mesmo em eras distintas.

A partir disso, inicialmente sem preocupação com explicações de como esse multiverso poderia acontecer dentro dos quadrinhos, a Marvel começou a publicar histórias que se passavam em outros universos. Era a deixa da qual eles precisavam para trazer personagens queridos de volta à vida, promover uniões inesperadas dentro de um título que vendia milhões de exemplares ou até brincar com universos absurdos e totalmente inesperados.

“O multiverso surgiu para solucionar um problema de contradição. Várias histórias eram desenvolvidas por artistas e roteiristas diferentes, começando a aparecer situações contraditórias. É uma maneira de lidar com essas histórias que se anulavam umas às outras, dando liberdade aos autores”, explica Márcio Moreira, pesquisador de histórias em quadrinhos e autor de Mundos Paralelos: O Papel da Imagem na Construção dos Multiversos de Super-Heróis.

Dentre os maiores sucessos de histórias que se dedicam a explorar o multiverso estão o Universo Ultimate (Terra-1610), com bases um pouco mais realistas para os personagens, chegando a eliminar alguns poderes; Zumbis Marvel (Terra-2149) que, como o próprio nome diz, insere os mortos-vivos dentro desse universo de super-heróis; a Marvel 1602 (Terra-311), escrita por Neil Gaiman, e que coloca os heróis em uma Terra ainda pouco explorada; e, um dos mais ousados, o Amálgama (Terra-9602), que mistura personagens da Marvel e DC. 

“Quem lê os quadrinhos da Marvel, mais cedo ou mais tarde vai ser apresentado ao conceito do multiverso. Não tem como fugir disso. Por isso, acho que faz sentido que o tema seja levado para o universo cinematográfico”, esclarece Lucas Werneck, quadrinista brasileiro de 28 anos que passou pela DC Comics e agora empresta seus traços à Marvel, principalmente nas HQs dos X-Men. “Este é um conceito que abre infinitas possibilidades criativas.” 

Desde esse começo atropelado da Marvel nas HQs, sem explicação clara do que estava acontecendo, a Casa das Ideias começou a colocar algumas regras no multiverso. Primeiramente, definiram o multiverso como “uma coleção de universos alternativos que compartilham uma hierarquia universal”, com algumas realidades nascendo de eventos com entidades cósmicas ou, como é mais comum, formadas por tradicionais viagens temporais.

A Marvel ainda criou uma entidade, o Tribunal Vivo, para proteger esses multiversos. Em essência, ele evita que um universo acumule muitos poderes e perturbe o equilíbrio cósmico mantido por Aquele Acima de Tudo – uma representação de Deus na Marvel. Por fim, a Casa das Ideias ainda criou a agência temporal Time Variance Authority (TVA), apresentada na série Loki, e que observa discrepâncias temporais para manter a “continuidade oficial”.

O fato é que tudo nasce da física. Ainda que não conte com viagens temporais, o conceito de multiverso se amplificou conforme a teoria do espaço e tempo e ganhou profundidade no ambiente acadêmico com a Teoria da Relatividade. Realidades dividem tempo e espaço. “São como bolhas de sabão flutuando em um universo ainda maior”, explica William Santos, físico e pesquisador da Teoria da Relatividade. “O multiverso é a sobreposição das bolhas.”

O termo foi explorado cientificamente pela primeira vez em 1952, por Erwin Schrödinger e, desde então, não saiu mais da boca da cultura pop. “É claro que há adaptações e uma boa parte de criatividade na forma como isso é contado. Mas é interessante colocar um conceito tão duro, complicado e áspero da física como a dos universos paralelos cada vez mais perto do público”, continua William. “É legal ver conceitos da física traduzidos para os cinemas.”

Com isso posto à mesa, surge a questão: como fica o Universo Cinematográfico Marvel? De um lado, há a preocupação de que a Marvel torne os filmes complexos demais – com tantos personagens, reencontros e histórias se misturando, fica a sensação de que são conteúdos demais que precisam ser consumidos antes de assistir a um único filme. Será que isso não vai deixar engessado demais algo que deveria ser divertido?

“O multiverso traz para essa equação o fator multiplicidade, que pode tanto complicar quanto facilitar o acesso às histórias. A princípio, a instância do multiverso exige uma abstração da realidade que subverte a tese da realidade como unitária e linear a que estamos acostumados”, analisa Delfino. “Apresentar e popularizar esse conceito é um desafio que avança na serialização do cinema inerente às sagas do universo compartilhado.”

Por outro lado, conforme avança a abstração e o público aceita a colisão de histórias, especialistas veem uma forma de tornar tudo mais simples. “O multiverso surgiu para dar uma maior liberdade para as histórias não ficarem tão presas. Os novos fãs terão horas e horas para assistir”, avisa o pesquisador Márcio Moreira. “O multiverso traz histórias diferentes, sem toda aquela carga, mesmo histórias que se contradizem. Se o Homem de Ferro morreu, em outra história pode ser trazido de volta.” 

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