Marvel 1602 traz super-heróis a serviço da coroa inglesa

Encadernado mostra heróis em meio a perseguições religiosas no século 17, quando a América era uma colônia

Adriano Marangoni, especial para o estadao.com.br,

19 de setembro de 2007 | 17h05

O que seria do mundo se super-heróis existissem de verdade é tema pra lá de batido nos quadrinhos. Mas o que aconteceria se estes mesmos heróis surgissem durante o século 17, em meio a perseguições religiosas e quando a América era apenas uma colônia? Premissa pouco mais inusitada, a princípio, de pouca ousadia, mas conduzida de maneira elegante pelo escritor Neil Gaiman e pela dupla de ilustradores Andy Kubert e Richard Isanove em Marvel 1602 (Panini, 256 páginas, R$ 39,90 com capa cartão ou R$ 49,90 com capa dura).   Já publicadas no Brasil divididas em oito volumes há alguns anos, Marvel 1602 é relançada agora numa edição encadernada com vários extras. Para quem perdeu da primeira vez, a obra mostra uma visão de Gaiman (o badalado criador de Sandman) sobre os X-Men, Quarteto Fantástico, Homem-Aranha e outros clássicos heróis criados por Jack Kirby e Stan Lee.   Na trama, os heróis são reunidos para o centro de uma das maiores crises políticas da Inglaterra, com a morte da rainha Elizabeth I. Soberana que conciliou os interesses burgueses com os da aristocracia, deixou um vácuo de poder reivindicado por Jaime I, rei da Escócia. Picuinha histórica que não chamaria atenção do leitor brasileiro, não fosse o fato de Jaime I ser pintado como um vilão da categoria de Magneto e Dr. Destino.   Colocar os personagens em situações adversas sem mudar seus traços básicos é o que garante o interesse em 1602. Na imaginação de Gaiman o Capitão América foi transformado num índio da Virgínia. Os X-Men, desajustados acusados de bruxaria. O Quarteto Fantástico, um grupo de exploradores humanistas. Adaptações que ao invés de romper, reforçam aquilo que fez da Marvel uma editora inovadora na década de 60.   Diferente de heróis como Super-Homem ou Batman, da DC, os heróis da Marvel são dotados de tal humanidade que os obriga a um questionamento moral quase constante. Com exceção do Capitão América, eles são frutos diretos da Guerra Fria e da contracultura americana. Os X-Men e o Homem-Aranha lutavam pela aceitação pública. O Quarteto Fantástico simbolizava o entusiasmo pela tecnologia. Ambientar suas histórias num tempo de pouca liberdade de idéias (especialmente no que se refere à igualdade e democracia) é como testar a própria natureza do heroísmo, supostamente, atemporal.   Com bem menos ação do que outras publicações da editora, 1602 tem um enredo tenso e bem amarrado. A rainha deseja um tesouro trazido do oriente por um velho Templário. Falsos inquisidores preparam fogueiras para seus inimigos políticos. Mercenários se escondem entre sombras e intrigas palacianas tomam forma. Nos desenhos de Kubert e Isanove, tudo é mostrado como pequenas pinturas alternadas pelas capas, semelhantes a gravuras de época.   Entre os leitores, a opinião sobre Marvel 1602 ficou dividida. A maior crítica foi feita ao britânico Neil Gaiman, que teria feito uma obra inferior à Sandman. No posfácio desta edição, o autor chega justificar dizendo que jamais teve intenção de ter feito algo semelhante ao personagem que o deixou famoso. Contudo, é o tipo de crítica que corresponde menos à obra e mais à genialidade que se espera de um produto cada vez mais voltado ao público adulto.

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