Martin & Anna, amor nas ruínas

Sai nos EUA um livro esclarecedor sobre o affair de Heidegger e Arendt

Ricardo Cohen, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

Por volta de 1924, o professor seduziu sua aluna. Ele tinha 35 anos e era casado. Ela tinha 19 e era solteira. Ele era um filósofo importante, e ela uma garota precoce, destinada a grandes feitos pessoais. Ele viria a se tornar nazista e ela era judia - Martin Heidegger e Hannah Arendt. Quem puder compreender ambos, como casal e individualmente, compreenderia o mundo e todos os seus mistérios. E poderia também nunca mais pegar no sono.

O affair Heidegger-Arendt é uma história muito contada que nunca perde o interesse para escritores. Mas surgiu um novo livro, Stranger From Abroad, de Daniel Maier-Katkin, que foi resenhado, junto com um livro separado sobre Heidegger, na primeira página do New York Times Book Review de domingo - um lugar de honra apropriado para esses dois gigantes intelectuais, para não mencionar seu muito estranho e, em termos afetivos, duradouro affair. Após a 2ª Guerra Mundial, Arendt defendeu Heidegger e retomou sua amizade.

O affair é bastante fácil de entender. Ela era uma jovem atraente, e ele um homem robusto com grandes realizações intelectuais, uma espécie de celebridade antes daquela imposta autoflagelação na TV. É mais difícil, muito mais difícil, seja compreender seja desculpar a determinação de Arendt - ou seria necessidade? - de continuar o relacionamento depois da guerra. Afinal, Heidegger não era um nazista em algum tipo de sentido passivo. Ele cumulou Hitler de elogios e, como reitor da Universidade de Freiburg, ajudou a expurgar os judeus do corpo docente - seus próprios colegas.

Celebridade. Quanto a Arendt, no anos do pós-guerra, ela se tornou absolutamente famosa. Seus relatos sobre o julgamento de Adolf Eichmann para a revista New Yorker - e depois no livro Eichmann in Jerusalem - se tornaram uma sensação e uma causa célebre. Ela formulou a expressão "a banalidade do mal", tão apropriada que sofreu o destino de todos os truísmos, virando um clichê. Ela foi celebrada e odiada por acusar alguns de seus colegas judeus de cumplicidade no Holocausto - um juízo duro e perverso.

Hannah Arendt não foi uma mera "garota" que não conseguiu superar seu primeiro amor - a menos, é claro, que fosse. Seja como for, sua estrutura emocional me interessa menos que a de Heidegger. A dele era um brilho só, um filósofo cujas obras ainda estão sendo discutidas. No entanto, seu nazismo não foi um produto de mero oportunismo - como foi, por exemplo, o de Werner von Braun, que precisava de um empurrão de Hitler para dispara seus foguetes, ou o de Herbert Von Karajan, que não permitiria que a mera moralidade se interpusesse entre ele e uma ilustre carreira. A carreira de Heidegger já estava estabelecida. Ele não precisava ser nazista; ele quis ser nazista.

No conjunto, esse é um casal totalmente assustador - dois dos grandes filósofos do século 20, seu gênio contradito por suas vidas inexplicavelmente estarrecedoras: um abraçou o nazismo, a outra o desculpou por fazê-lo. Numa área crítica, deveria haver estátuas para eles em cada praça de cidade, e outdoors deles olhando para os ingênuos que acham, como Alan Greenspan um dia achou romanticamente dos mercados financeiros, que o homem é racional.

Uma opinião. Houve um tempo em que eu combati o conceito de mal. Quando Ronald Reagan chamou a União Soviética de "império do mal", eu franzi a testa. "Mal" não sugeria nenhum motivo, uma força que não poderia ser compreendida. Isso, por sua vez, descartava uma acomodação, e isso era apenas puro pavor.

Mas Reagan estava certo sobre o sistema soviético, enquanto George W. Bush, alguns anos depois, estava errado e foi oportunista quando ofendeu Reagan rotulando três regimes disparatados e desconexos de "eixo do mal" - um absurdo mecânico, uma abominação gramatical. Cuidado com aqueles que lhe dizem para não pensar.

Hannah Arendt e Martin Heidegger representam a velocidade da luz intelectual, o limite absoluto do que a razão pode fazer, e a natureza laboriosa, insidiosa do mal. A pura banalidade de lealdade, de afeição passada, ou, quem sabe, de incapacidade de admitir um erro, cegou Arendt para o mal de Heidegger e o mal deste o cegou para suas consequências. Ele conseguiu separar intelecto de moralidade, e ela não conseguiu separar quem ela havia se tornado de quem ela havia sido.

Logo depois da guerra, ela escreveu que "o problema do mal será a questão fundamental da vida intelectual do pós-guerra na Europa" - e então, alguns anos mais tarde, ela partiu para a Alemanha e telefonou para seu antigo amante. Ocorre que não é o mal que é banal. É o amor. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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