Rick Malkin/Divulgação
Rick Malkin/Divulgação

Marley está aqui

Família faz show nos EUA para lembrar os 30 anos de ausência do maior nome do reggae

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2010 | 00h00

Um show que evoca a memória de um músico popular, morto há quase três décadas, tem de provocar tristeza em seus admiradores. Errado! Essa certeza não vale para um jamaicano, que falou de amor, política, rebeldia e redenção por meio do reggae. O saudosismo existiria se esse cantor e compositor tivesse desaparecido, de fato, em maio de 1981. Ele sempre esteve aqui, como provou o público do Bob Marley: Live Forever - 30th Anniversary Tribute Concert, que o Estadão acompanhou na quinta-feira, dia 23 de setembro, no Benedum Center, em Pittsburgh, EUA.

Antigo Stanley Theater, essa casa de espetáculos se tornou especial por ter sido o local da última performance de Bob Marley, em 23 de setembro de 1980. O conteúdo do show final vai dar origem ao CD duplo Bob Marley and The Wailers: Live Forever, Tuff Gong/Universal, previsto para dezembro. Na época, o cantor jamaicano estava fazendo com The Wailers a turnê norte-americana do disco Uprising, que apresentou o hit Could Be Loved e a comovente Redemption Song. Chegou aos Estados Unidos tendo conquistado as maiores audiências da carreira em tour anterior pela Europa. Mas não completou a programação na América. Dias antes da atuação no centro de Pittsburgh, ele sofrera um colapso no Central Park, em seguida a duas apresentações lotadas no Madison Square Garden (Nova York). O câncer se manifestou com virulência. Só houve tempo para a plateia da Pensilvânia. Dali a 8 meses Bob Marley morreria. Tinha 36 anos.

O público que foi ao Benedum Center não parecia respirar essa história. Gerações diferentes, vestindo as cores da bandeira do rastafarismo - amarelo, vermelho e verde -, resumiram bem a influência de Bob Marley. Apesar de a performance atrasar cerca de 40 minutos, os fãs, jovens na maioria, estavam tranquilos. Mesmo pontuais, os norte-americanos aceitaram o atraso, ou a oportunidade para o teatro de quase 3 mil lugares lotar até o início da celebração.

Antes de a família Marley entrar no palco para tocar as mesmas músicas do show de 1980, dois netos explicaram que a arrecadação seria doada para 1Love, organização beneficente mantida pelo clã. Fotografias do patriarca foram exibidas em um telão. A relação quase mística começava naquele instante. Para fazer as vezes de Bob Marley, compareceram Damian, Julian e Stephen, alternando-se ao microfone, onde davam gritos iguais aos do pai ("yeeeeê"). Eles foram acompanhados por uma bateria, dois teclados, um baixo e uma guitarra. Os três filhos receberam a companhia de Rita, viúva de Bob, conhecida como Queen Mother (Rainha Mãe). Entre as backing vocals, as filhas Sharon e Cedella completaram os Marley. Ziggy, o filho mais famoso, não participou, nem Ky-Mani, autor de livro polêmico, que trata da família.

O tributo começou com Coming In From The Cold e uma quebra de protocolo. Poucas pessoas estavam sentadas. As cadeiras numeradas ficaram inúteis com o público, empolgado, tomando os corredores do grande teatro. Muitos colaram o umbigo no fosso do palco, onde tiraram fotos privilegiadas dos músicos. O clima já estava fervendo em Real Situation. Depois vieram Bad Card, Zion Train, We and Dem, Forever Loving Jah e Work.

Cigarro, muito cigarro. Os arranjos penderam para o rock. A guitarra mostrou forte influência do blues. E a batida era mais nervosa que a de Marley com The Wailers. Mesmo proibido, o cheiro de cigarro se espalhou. Até então apagado, o grande lustre de cristais acendeu-se para iluminar, e talvez vigiar, melhor a audiência. (Não custa lembrar que a maconha é usada ritualmente pelo rastafarismo, cujas bandeiras se espalhavam pela casa).

Rita entrou em cena para cantar No Woman, No Cry, um dos hits da homenagem, apesar de não pertencer ao Uprising. Os outros sucessos da carreira do compositor jamaicano foram Positive Vibration, Exodus, Get Up, Stand Up, Jammin'' e One Love, que arrematou a celebração. Um dos momentos mais emocionantes foi o bis com Redemption Song, quase estragada por Damian, que improvisou um rap em desacordo com o ritmo pedido pela balada.

O seu canto acelerado pareceu um corpo estranho. Esse foi, no entanto, o único reparo a uma noite de alegre comunhão. Pessoas de idades e cores diferentes foram ao Benedum Center atrás de Bob Marley, trinta anos após o último show, por um motivo simples: ele continua a lhes inspirar um desejo intenso de liberdade.

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