Mark Bradford ganha primeira mostra individual no Brasil

Americano é autor de pinturas que, mesmo abstratas, têm forte conteúdo político-social

Marina Vaz, O Estado de S. Paulo

01 de abril de 2014 | 18h07

Pelas ruas próximas a seu ateliê, na região centro-sul de Los Angeles, Mark Bradford recolhe o material que servirá de base para seus trabalhos. Materiais que, na maioria das vezes, são ignorados por quem passa por ali. Cartazes colados em telefones públicos, por exemplo, costumam chamar sua atenção. "Eles carregam tantas mensagens sobre o que está acontecendo", reflete. A partir desta quarta, dia 2, o americano ganha sua primeira mostra individual no País, na filial paulistana da galeria White Cube, com sede em Londres.

São expostas nove pinturas feitas com colagens e muitas, muitas sobreposições. "A distância, quando você olha para as pinturas, elas parecem um trabalho expressionista abstrato, mas, ao se aproximar, vê que elas, na verdade, não são feitas de tinta, mas de papel; e isso é extraordinário", diz Susan May, diretora artística da galeria, citando o movimento que surgiu nos Estados Unidos, na década de 1950.

 

A escolha por incorporar elementos tidos como de pouco valor reforça o viés político-social das obras. "Os materiais que uso estão invisivelmente visíveis na cidade; são materiais pobres, que carregam um componente de classe social", analisa Bradford, que define seu estilo como "abstração social".

Uma das obras que integram a exposição é My Whole Family Is From Philly. Nela, o ponto de partida é uma pilha composta por pôsteres, recortes de jornais e folhas com impressões digitais coloridas. O artista faz "escavações" em partes dessa pilha, criando contornos e desenhos que lembram o mapa da cidade da Filadélfia (cujo apelido, Philly, aparece no título).

Referências à cartografia e a documentos antigos são constantes nos trabalhos de Bradford. "Eu gosto da história dos documentos e da ideia de eles formarem o passado político do país", afirma ainda.

É o caso dos trabalhos The Less Common Royalness e Rest Deep in Curiosity, que têm elementos que lembram plantas arquitetônicas, quarteirões de cidades e planos diretores.

Em Amendments #5-10, Bradford se apropria de trechos de emendas da constituição americana. "Ele faz vários trabalhos focados na ideia de democracia, e em como a democracia é manipulada por quem está no poder", analisa Susan. No caso, essas manipulações, essas distorções, estão visualmente explicitadas. "Ao longo da pintura, ela se torna mais e mais abstrata, e o texto se torna menos legível", acrescenta a curadora.

Bagagem. Temas sociais sempre atraíram a atenção do artista, que vem de família humilde. "Isso é parte de mim; eu me interesso por ciência política, antropologia social, estudos da civilização, porque eles falam diretamente sobre pessoas", explica. Lidar com pessoas de diferentes perfis foi algo que aprendeu desde cedo – aos 11 anos, já ajudava a mãe cabeleireira no salão mantido pela família. Ali, além de ouvir "muitas histórias de vida", também descobriu interesse por materiais, texturas, e por trabalhos manuais.

A conexão com a arte sempre existiu, mas não de forma "tão romântica", ele adverte. "Na minha casa, tinha gente que fazia mobília, que fazia música, minha mãe também desenhava roupas; então, a criatividade estava no ar", diz, lembrando que chegava até a pintar e organizar "exposições" para sua mãe.

"Eu sempre fui muito criativo, mas, em uma família pobre, ninguém coloca tanta importância em algo que não vai fazer você ganhar dinheiro. Ninguém dizia ‘oh, ele é um artista’; diziam apenas ‘ok, esse é o Mark’", diverte-se.

A decisão de estudar arte veio bem mais tarde, na década de 90, quando Bradford já estava perto dos 30 anos e tinha passado um bom tempo viajando pelo mundo – e frequentando casas noturnas. "Eu e meus amigos nos arrumávamos, fazíamos coisas extravagantes; aquilo era ser criativo pra mim. Daí, eu pensei que ir a uma escola de arte era ter um lugar para ser criativo, para desenvolver isso", afirma também.

Nas aulas do Institute of the Arts da Califórnia, Bradford teve ainda mais certeza de seu interesse por arte abstrata. "Nas aulas de estúdio, colocavam um modelo na minha frente e eu ficava tão entediado. Eu só pensava ‘quem se importa? Tire uma fotografia!’", lembra. "Desde criança, eu sempre achei que a abstração era como eu sentia o mundo; aquilo fazia muito sentido para mim."

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