Mariza, fenômeno da world music, mostra seu fado em SP

Cantora exótica renova o gênero tradicional português com sua leveza e alegria

Agencia Estado

26 Junho 2007 | 16h54

Os cabelos oxigenados, que coroam a altivez de Mariza, são só a parte mais evidente de sua atitude diante do universo do fado, o maior gênero musical de identidade portuguesa. "As pessoas têm a idéia de que o fado é muito pesado, melancólico. Eu procuro mostrar um lado mais alegre, que se desconhece", diz a cantora, que se apresenta esta semana no Rio (quinta-feira) e em São Paulo (sexta-feira). "Nossa maior cantora, Amália Rodrigues, provou por várias razões que existem maneiras diferentes de cantar o fado", prossegue. "A gente canta o sentimento do ser humano. Não passamos o dia todo na melancolia. Você vai às tavernas e encontra as pessoas bebendo vinho, celebrando a vida. Minha música é isso: a comemoração da vida." Nas duas noites dessa terceira volta ao País, Mariza vai interpretar o repertório do excelente Concerto em Lisboa (EMI), lançado em CD e DVD no ano passado, Brasil incluído, em que esteve acompanhada da Sinfonieta de Lisboa. Não se trata de mais um registro ao vivo caça-níqueis como os que se vê muito no mercado de música brasileira. Realizado ao ar livre, na área ao lado da Torre de Belém, o mais famoso cartão-postal da capital portuguesa, o concerto tem canções, interpretações e arranjos magníficos. É um atestado da força da beleza de uma cantora fora do comum, que o mundo vem descobrindo. A turnê de Mariza passou por Estados Unidos e Europa, onde vem sendo apontada como novo fenômeno da world music. "Esse conceito inventado pelos franceses para classificar a música de raiz, não me incomoda; as pessoas gostam de ter a casa arrumada. Quando a gente leva a elas um trabalho feito de forma sincera, é essa música que fica, não o rótulo", diz. ´Sonoridade própria´ O visual excêntrico ajudou a propagar a fama e muita gente que a descobria ia a suas apresentações mais por curiosidade exótica do que por interesse cultural. "Agora sinto que as pessoas começam a conhecer muito bem meu trabalho e vão me ouvir para ouvir a música." Nascida em Moçambique, a cantora mudou-se para Portugal aos 3 anos de idade. Estreou em disco com Fado em Mim (2001) e consolidou seu estilo em Fado Curvo (2003). Tem entre suas influências nomes de peso como Amália Rodrigues, Fernando Maurício e Carlos do Carmo. Os três foram homenageados por ela em seu mais recente álbum de estúdio, Transparente (2005), o primeiro com a colaboração do brasileiro Jacques Morelenbaum, que vai acompanhá-la nos dois concertos. "Encontrei com Jacques o que sempre procurei para minha música: uma sonoridade própria, mais leve, mais romântica. O som da orquestra, a forma apaixonada como os músicos tocam, funciona como um veludo", diz. "É fantástico poder levar essa sonoridade ao Brasil, mostrar meu fado muito pessoal que conquistei com a ajuda dele", prossegue. "Admiro a forma como Jacques trabalha porque ele respeita quem canta. Para mim já é mais do que um produtor, tornou-se amigo." Relação com o Brasil Esta não é a primeira vez que Mariza se envolve com um músico brasileiro. "Desde a infância conheço muito bem música brasileira. Tive o prazer de conhecer Caetano Veloso, de estar com Chico Buarque num filme de Carlos Saura sobre o fado, de cantar com Alcione durante um show dela no Coliseu de Lisboa", diz. Mariza chegou a viver um tempo no País durante os anos 90, mas passou despercebida. "Ninguém sabia quem eu era, achavam que eu era baiana", diverte-se. "Fazia shows em cruzeiros pela costa nordestina e essa experiência me fez crescer como cantora." Ela também vinha fazendo pesquisas para escrever um livro contando a história do fado, mas com a repercussão internacional de seu trabalho o projeto teve de ser adiado. "Minha vida agora anda muito agitada", diz. Em novembro ela lança outro CD. Embora sem a Sinfonieta de Lisboa, além de Morelenbaum a cantora vem acompanhada de Luis Guerreiro (guitarra portuguesa), Antonio Neto (guitarra), Vasco Sousa (baixo), Antonio Barbosa (violino), Ricardo Mateus (viola) e João Pedro Ruela (percussão). No repertório há clássicos como Barco Negro (David Mourão-Ferreira/Caco Velho-Piratini), que ao lado de Recusa (Mário Rainho/José Magala) é um dos números mais intensos do show, poemas musicados de Fernando Pessoa e Florbela Espanca, temas de grandes autores portugueses como Rui Veloso e José Afonso. Harmonizando antigos e novos fados, Mariza é muito cuidadosa na escolha de melodias e letras que interpreta. Procura sobretudo cantar o amor aberto de forma sensual. "Trabalho com muita gente, faço muita pesquisa poética e dou aos compositores para trabalhar comigo. Tenho encontrado poetas com quem me identifico. Dá muito trabalho pesquisar, mas tem a ver com aquilo que sinto. A mensagem tem de ser clara. As palavras têm de nos beijar." Mariza. Tom Brasil-Nações Unidas (1.800 lug.). R. Bragança Paulista, 1281, 2163- 2000. 6.ª, 22 h. R$ 80 a R$ 160

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