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Marivaux, Vie d'Adèle

Marivaudage. Não se avexe de ignorar o que esta palavra significa. Levei anos para lhe ser apresentado, apesar do muito que nos ensinavam de língua e literatura francesas no velho Colégio Pedro II. Sabia quem fora Pierre de Marivaux (1688-1763) e que impacto suas peças causaram no século 18, mas marivaudage, sinônimo de intrigas amorosas tratadas em tom ligeiro, que custei a distinguir de badinage, neologismo oitocentista legado pelas comédias teatrais de Alfred de Musset, só entrou no meu repertório graças a um crítico da (ou do, como preferíamos dizer) Cahiers du Cinéma, Jean Domarchi, o primeiro a rotular de marivaudages algumas comédias filmadas por George Cukor.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2014 | 02h09

Marivaux é a principal referência literária de Azul É a Cor Mais Quente, o filme mais quente deste verão. Ausente do romance gráfico de Julie Maroh (Le Bleu Est Une Couleur Chaude) que lhe serviu de inspiração, Marivaux é uma antiga admiração do cineasta tunisiano Abdellatif Kechiche, que no início da década passada já havia articulado outro filme, A Esquiva, em torno de uma encenação amadorística de O Jogo do Amor e do Acaso, talvez o mais celebrado dos marivaudages. O de agora não veio da ribalta, mas da ficção pura: o romance inacabado La Vie de Marianne, de onde também derivou o título original do filme: La Vie d'Adèle.

Iniciado 36 anos antes da morte do autor, suas primeiras 11 partes foram publicadas entre 1731 e 1745, e podem ser baixadas de graça na internet. É um romance epistolar, narrado por uma mulher madura que cresceu órfã, virou condessa e, desiludida pelos "jogos do amor e do acaso", recolheu-se a um convento. Não é uma história convencional de corações partidos mas quase um estudo sobre a metafísica do ato amoroso. Marivaux não só adotou a voz feminina, como procurou imitar o jeito de escrever das grandes madames (de Sévigné, de la Fayette) da literatura. Sua influência sobre o estilo romanesco do final do século 19 já motivou várias análises acadêmicas.

São demasiado sutis as similaridades entre as personalidades, as origens sociais e os desapontamentos de Marianne e Adèle. Não vi o telefilme que Benoît Jacquot extraiu de La Vie de Marianne, no final do século passado. A única aproximação (ou apropriação) cinematográfica do romance que conheço é a de Kechiche, que, a exemplo de Marivaux, se alonga nas descrições para melhor explorar e captar os sentimentos e as emoções de suas duas amantes.

Nos quadrinhos originais Adèle se chama Clémentine e sua história nos é revelada através de um diário lido por Emma. Assim como a troca do nome (Adèle quer dizer justiça em árabe), as referências literárias são de inteira responsabilidade de Kechiche, que nos introduz a uma aula sobre Marivaux logo nas primeiras cenas, complementada por uma comparação de La Vie de Marianne com A Princesa de Clèves (de Mme. de la Fafayette) e uma digressão sobre o amor à primeira vista, que em seguida Adèle irá experimentar numa furtiva troca de olhares com Emma, a desconhecida de cabelos azuis, no Baixo Lille. Nas aulas seguintes, o professor de Adèle se refere à Antígona, a rebelde filha de Creonte, e a Lamiel, a jovem órfã do romance póstumo de Stendhal, cujas aventuras e desventuras amorosas encontram eco na educação sentimental de Adèle.

O azul é um achado cromático e simbólico de que o cineasta se serviu de forma discreta. Maroh o utiliza com exagero em seus quadrinhos; Kechiche o mantém exclusivo dos cabelos de Emma, e apenas na primeira parte (ou capítulo) do filme. Sempre identificamos o azul com harmonia, fidelidade, confiança ("true blue"), alegria ("Blues skies, smilin' at me...", "Nel blu dipinto di blu"), liberdade, com o céu, o mar profundo, Picasso, Virgem Maria, com lembranças agradáveis (no último encontro de Rick Blaine e Ilsa Lund, em Paris, os soldados alemães vestiam cinza e ela, azul) e devaneios saudosistas (como os de Jay Gatsby), ou mesmo, excepcionalmente, com coisas negativas como a tristeza ("Am I blue?"), o luto (só na Turquia), a morte (só na ópera chinesa), mas ao calor afetivo & sexual me pareceu novidade. O que fazer doravante com o vermelho?

Na tela, as transas são infinitamente mais frequentes, passionais, explícitas e impactantes do que na novela gráfica de Maroh. Ela acusou o cineasta de voyeur e fetichista, de explorar o corpo de Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, em especial a boca e a bunda da primeira. Não foi a única (militante feminista ou não, lésbica ou hétero) a cometer uma avaliação superficial do profundo mergulho nas emoções ousado por Kechiche, com a cumplicidade das suas belas e esplêndidas atrizes. Abstenho-me de um close reading do filme, pois, no fundo, tudo o que talvez tenha a dizer sobre ele aqui já foi dito por Luiz Carlos Merten.

Confesso que temi não suportá-lo até o fim. Com meia hora de bola em jogo, duvidei que a vida de Adèle, até então morosa e insossa, pudesse justificar os 149 minutos que ainda tinha pela frente. Aos poucos, antes mesmo da primeira cena de sexo - longa, tensa e lírica como a segunda - Adèle, Emma, e os closes e pausas de Kechiche já haviam me aprisionado em sua teia de sedução.

Na sessão vesperal em que vi o filme, cercado de espectadores idosos e de morigerada aparência, não ouvi sequer um suspiro de estupor e indignação. Havia na sala um silêncio respeitoso, como se na tela estivesse sendo projetado um ascético drama de Ingmar Bergman. Lembrei-me da proibição pela censura de Os Amantes, de Louis Malle, por causa de uma pudica cunilíngua em Jeanne Moreau, e do escândalo provocado pela amanteigada sodomização de Maria Schneider em O Último Tango em Paris, e pensei comigo: "Puxa, como evoluímos".

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