Marcos de Paula/AE
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Marisa Paredes fala dos quase 30 anos de convivência com Almodóvar

Atriz está em 'A Pele que Habito', novo longa do cineasta que estreia nesta sexta

Luiz Carlos Merten , O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2011 | 03h08

São quase 30 anos de convivência. Ela precede o primeiro filme que Marisa Paredes fez com Pedro Almodóvar - Maus Hábitos, de 1984. Neste longo período, ela tem testemunhado as transformações do homem e do artista que, em Labirinto de Paixões, aparecia num papel de gay assumido, de meias arrastão e brincos.

A educação sexual de Almodóvar, por padres salesianos, já apareceu superficialmente em Má Educação. De alguma forma, A Pele Que Habito metaforiza, com muito mais propriedade, o homossexualismo do autor. Para citar um exemplo, o alemão Rosa Von Praunheim fez diversos filmes para mostrar homens que viram mulheres de si mesmos. Almodóvar segue o caminho inverso e filma um homem num corpo de mulher. Para entender as implicações de La Piel Que Habito, nada como ver o filme. Avançar muito nas informações significa entregar detalhes que podem atenuar e até comprometer o impacto que a obra provoca.

Almodóvar baseou-se num livro de Thierry Jonquet, mas as referências mais fortes de A Pele Que Habito são o cult fantástico de Georges Franju, Les Yeux Sans Visage, e o melodrama. O horror de Franju filtrado pelo cinema de lágrimas. Que lhe parece?

Que é pertinente. Pedro foi sempre muito ligado ao melodrama, desde o início de sua carreira, na movida (a movimentada abertura madrilenha que se seguiu à morte do generalíssimo Francisco Franco e o fim da ditadura), mas antes o melodrama era escrachado pelo humor e as coisas eram muito mais farsescas. Mas Pedro não é mais um jovem (nasceu em 1948) e, à medida que envelhece, seu cinema fica mais grave e maduro. Antes, ele fazia aquelas incursões mais ligeiras pela crítica de costumes, hoje mergulha nos labirintos da alma humana. Havia aquele filme antigo, Labirinto de Paixões, em que elas, as paixões, de tão exacerbadas provocavam o riso. Pedro continua esse trabalho de exacerbação, mas agora é mais denso e profundo. As cores passam por uma mudança. Temos mais cinza, mais marrom. É um artista mais completo.

Tenho a impressão que o que ele queria dizer sobre seu homossexualismo está mais claro em A Pele Que Habito, concorda?

Toda essa metáfora da pele se refere à questão da identidade. Há uma dor genuína neste personagem, que passa por uma mudança, inclusive física, que é radical. Pedro não deve nada a ninguém e tem a coragem de ser pessoal, e de se expor, sem ser autobiográfico. Não creio que outro, que não ele, pudesse escrever o roteiro de A Pele Que Habito. Pedro viaja nos gêneros. Ficção científica, horror, melodrama. Mas ele não fica na exterioridade dos gêneros. São ferramentas de que se utiliza para mergulhar no interior dos personagens.

Nos outros filmes dele, você era sempre uma diva. Aqui, parece mais cansada, uma mater dolorosa. Foi difícil fazer?

A Pedro não se diz não, quando ele propõe um papel. Afinal, é Almodóvar o maior diretor da Espanha, um dos maiores do mundo. Mas o que havia de atraente em A Pele Que Habito é que essa mulher é realmente diferente de todas as outras que interpretei para ele. Não vou dizer que precisei envelhecer para fazer o papel. Também não sou uma jovem. O cinema tende a nos glamourizar. A mãe de A Pele Que Habito não tem nada de mim e, ao mesmo tempo, é totalmente eu. Pedro não queria que eu fosse a clássica governanta dos filmes de Hollywood. Ele não me colocou nenhum uniforme. Minha roupa foi criada por Jean-Paul Gaultier!

 

Existem as referências brasileiras. Sua personagem é mãe de dois filhos. O Brasil aparece na música, e não apenas nela. Que Brasil é esse?

A referência mais óbvia ao Brasil em A Pele Que Habito tem a ver com a cirurgia plástica. Ivo Pitanguy é um nome conhecido em todo o mundo. Mas, pela própria natureza da trama, Pedro buscou um Brasil imaginário, mais livre do pecado. Não vou dizer que vocês foram incólumes ao processo de culpa da civilização judaico-cristã, mas a Bahia oferece uma ideia de convivência, de sincretismo, vocês têm o carnaval, a relação com o corpo tende a ser outra.

É seu quinto filme com Pedro...

Na verdade, é o sexto, mas eu nem conto Fale com Ela, em que meu papel é pequeno, uma participação 'amigável', como se diz.

Minha pergunta é sobre reencontros. Você vive se reencontrando com Pedro, mas o grande reencontro é o dele com Antonio Banderas. Não filmavam desde Ata-me, em 1990. Como foi?

Um dos prazeres que este filme me proporcionou foi acompanhar a retomada da parceria de Pedro com Antonio. Ele também teve uma relação muito especial com Elena (Anaya). Sinto que farão mais coisas juntos, mas com Antonio foi outra coisa. Eles sempre se mantiveram em contato, e muito próximos, mas, ao voltar ao cinema de Pedro, Antonio era outro ator, bastante diverso daquele de 20, 30 anos atrás. E o papel é muito nuançado. O filme trata de vingança, mas também de sobrevivência. Antonio é um monstro, na verdade, a vilã de A Pele Que Habito sou eu, porque gerei dois monstros (risos). Mas é um monstro que sofre, que ama. Nada disso é fácil de expressar. Às vezes, Antonio queria fazer do seu jeito e Pedro o trazia para sua visão. Pedro é engraçado no set. Se ele sente que o ator não está conseguindo o que pretende, Pedro interpreta a cena. Com exceção de um momento, ele sempre pedia 'menos' para Antonio. Mas tem a cena do 'mais', que é facilmente identificável.

O que você vai fazer agora?

Vamos fazer o roteiro que Raoul Ruiz deixou pronto. Chama-se As Linhas de Torres. O filme será dirigido por sua viúva, Valeria Sarmiento. Raoul era outro que tinha uma visão muito particular, do mundo e do cinema. Estou muito curiosa para ver como sua mulher vai se apropriar do seu universo. Se der certo, poderá ser um grande filme.

 

A PELE QUE HABITO

Título original: La Piel Que Habito.

Direção: Pedro Almodóvar. Gênero: Drama (Espanha, 2011, 120 minutos). Censura: 16 anos

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