Marisa de verdade

No arrebatador Verdade Uma Ilusão,cantora volta mais calorosa e sensual

LAURO LISBOA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2012 | 03h08

Onde é que vamos parar? Primeiro foi Chico Buarque, depois Gal Costa, agora Marisa Monte. Três shows brasileiros de grande porte e arrebatadores, vindos de outras capitais (Belo Horizonte, Rio e Curitiba), marcam esse primeiro semestre de 2012 em São Paulo com um grau de profissionalismo e valor artístico como havia muito não se testemunhava numa mesma temporada.

Marisa tirou a vírgula que separa verdade e ilusão do título de uma das canções do novo álbum, O Que Você Quer Saber de Verdade, e não é por acaso que a palavra repetida pisca como sinal de alerta na concepção do show Verdade Uma Ilusão. Com tanta mentira por aí, seja na política, na simulação da realidade em shows de televisão, nas relações amorosas, na publicidade, Marisa ressurge em momento de reflexão propondo um olhar para a frente, pra cima e pra fora.

Das 24 canções do show, 19 são autorais, com seus habituais parceiros Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, além de Rodrigo Amarante, Nando Reis, Davi Moraes, Dadi, Pedro Baby e Julieta Venegas. Um diferente a cada canção, os cenários em disposição tridimensional deslumbram com projeções de vídeos, sobre vários formatos de telas, criados a partir de obras de artistas brasileiros contemporâneos, como Luiz Zerbini (High Definition), Tunga (Ão), Marcos Chaves (Amarésimples Amarécomplexo).

O que se poderia chamar de ilusão de ótica, ao contrário do que pressupõe, não tira a atenção do mais essencial, que são as canções. Também não é por acaso que algumas das artes projetadas - em Amar Alguém, Diariamente, Sono Como Tu Mi Vuoi, Gentileza - são feitas de várias palavras, como mensagens quase didáticas até para o ogro beberrão e falastrão da mesa ao lado se tocar que aquilo era "de bom gosto" e "inteligente". Em Diariamente (Nando Reis), Marisa faz mímica redundante, quase infantil, sobre cada movimento e objeto da letra da canção, como se estivesse conversando com surdos-mudos.

No show anterior, ela começava cantando "Eis o melhor e pior de mim" (Infinito Particular, a nona canção do show atual) no escuro. Desta vez o breu é no fim. Sob uma luz tênue, ela e a banda aparecem detrás de um imenso telão que cobre toda a boca de cena com a vinheta Blanco e projeções de fragmentos coloridos que impressionam. Em seguida, já descoberta do véu, arranca com força pela canção-título do novo álbum, novamente com versos propositais: "Vai sem direção/ Vai ser livre".

Eis a grande diferença entre esse e o show anterior, Infinito ao Meu Redor: Marisa está muito mais solta, calorosa, dançante, sensual, de braços abertos, em movimento. Enfim, mais madura e menos técnica, ainda que não deixe de sê-lo um minuto sequer, porém de um jeito que parece mais verdadeiro. No roteiro predominam canções com ar de felicidade, que procuram valorizar, como ela mesma disse em entrevistas, qualidade de vida, o que é honesto por natureza.

Há quem ache até de certa forma ingênuo, mas para o público que ela atinge hoje, há nisso uma certa urgência. Como um Roberto Carlos da era moderna, Marisa vem colecionando êxitos que trilham as relações de amor e amizade de milhões de brasileiros de mais de uma geração. Num país em que as letras de canções tomam o lugar da poesia e da literatura, não é raro ver gente seguindo seus versos como lemas e vertendo lágrimas no show ao acompanhá-la em canções como Velha Infância e Não Vá Embora.

Do novo álbum, um dos destaques é Depois, sobre o final sereno de um casamento. O vídeo, criado por Janaína Tschäpe, tem a caligrafia de Arnaldo Antunes na letra da canção, que é projetada sobre a imagem fixa de uma cama de casal vazia. Ao término da canção, o colchão se rompe e a água se esparrama para os lados. Simples, direto e tocante.

Ao contrário do que diz em O Que Você Quer Saber de Verdade, Marisa olha bastante para trás - e o faz com propriedade. Canções dos álbuns mais antigos, como Beija Eu, Eu Sei (Na Mira), esta em ritmo de sambalanço, De Mais Ninguém e Não Vá Embora ressurgem em versões mais encorpadas. Artisticamente mais depurada, ela revela detalhes na voz, como uma Maria de Verdade (que bem poderia estar no lugar de A Sua), derramando a canção.

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