Mário Viana constrói fábula política

Poucos temas foram tão revisitados na história da arte, como a Anunciação: o momento em que o anjo revela à virgem sua concepção do menino Jesus. Cada um a seu modo, góticos e renascentistas tomaram a passagem do Evangelho de São Lucas como mote para suas obras. Leonardo da Vinci valeu-se de flores e estudos de luz para construir uma cena ao ar livre. Já o flamenco Jean van Eyck preferiu transportar o episódio para o interior de uma igreja, como era do gosto dos artistas setentrionais.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 00h00

Em Cheiro de Céu, espetáculo que estreia amanhã no Espaço Parlapatões, a Anunciação reaparece como inspiração para o dramaturgo Mário Viana. E serve, nesse novo contexto, à criação de uma sátira política, dirigida por Norival Rizzo. Com ares de fábula, a peça de Viana localiza sua trama em algum reino distante e desconhecido. É lá que a mendiga Angelina recebe a visita de um anjo e a notícia de sua iminente gravidez divinal.

O espectador, porém, não tardará a descobrir que a fantasiosa história contada a Angelina escondia os planos de uma rainha estéril e de um rei desejoso de um herdeiro para o trono. E verá desenhar-se, por detrás dessa estrutura dramática aparentemente ingênua, uma alegoria do poder e das constantes artimanhas da classe dominante.

Depois de experimentar todas as vertentes da comédia, Mário Viana diz ter se aproximado do território da farsa com Cheiro de Céu, tomando emprestado o formato popular da Idade Média. Mas também não faltaram, explica o autor, referências à dramaturgia brasileira mais recente. "Parti de certo tipo de teatro que se fazia na época da ditadura, em que se usavam muitas cifras e metáforas para se tratar de assuntos sobre os quais não se podia falar abertamente."

CHEIRO DE CÉU

Espaço Parlapatões. Praça Franklin Roosevelt, 158, tel. 3258-4449, Consolação. Sáb., 21h; dom., 20h. R$ 30. Até 3/4

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